Domingo, 28 de Junho de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 27 de junho de 2026
Cidadãos de Cuba têm deixado o país em busca de refúgio no Brasil. A principal rota migratória passa pela Guiana e segue até Roraima, ao norte do País. Neste caminho, os cubanos são aliciados e explorados financeiramente por coiotes.
Em apenas uma semana, no começo deste mês, 189 cubanos foram resgatados pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), número quase duas vezes maior que a soma dos flagrantes dos dois últimos anos.
Ao longo do percurso da Guiana ao Brasil, eles cruzam a fronteira entre os dois países em botes, atravessam áreas de mata, enfrentam fome e desidratação, separação de familiares, riscos e exploração financeira. Eles pagam até US$ 10 mil dólares pela viagem clandestina até Boa Vista – mesmo com a possibilidade de pedir refúgio de forma legal e gratuita.
O resgate crescente de cubanos vítimas de coiotes no Estado acompanha a estatística divulgada nesta semana pelo Ministério da Justiça. Pela primeira vez em uma década, os pedidos de refúgio feitos por cubanos em Roraima superaram os de venezuelanos.
Rota
Como a Guiana não exige vistos a cubanos, milhares têm viajado de avião de Havana até o aeroporto de Georgetown, capital guianense, com escalas em países como a República Dominicana. De lá, seguem numa viagem que chega a 20 horas por estrada (em grande parte de terra) até Lethem, na fronteira com o Brasil.
Ali, são atravessados por coiotes de maneira irregular, num barco pelo rio Tacutu. No Brasil, entram em carros superlotados que seguem em alta velocidade até a região de Boa Vista, onde pedem refúgio para permanecer no Brasil.
São rotas que “expõem as pessoas a diferentes riscos de proteção, como condições inseguras de transporte, endividamento e situações de exploração”, explica Thaisa Freitas, coordenadora do Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados em Roraima, que tem visto o crescimento expressivo no atendimento a cubanos.
Segundo a lei brasileira, o estrangeiro que chega ao território nacional pode solicitar reconhecimento como refugiado “a qualquer autoridade migratória que se encontre na fronteira”. Ou seja, em tese, os cubanos não precisariam se submeter à travessia clandestina.
Mas, segundo imigrantes e fontes que conversaram com a BBC News Brasil, muitos cubanos são levados a acreditar que precisam fazer esse trajeto por meio de atravessadores irregulares, pagando valores que passam de 10 mil dólares (R$ 51,4 mil) desde a saída de Cuba.
Segundo a PRF, na última semana começou a aumentar o número de imigrantes que estão entrando com o pedido de refúgio no posto de fronteira em Bonfim, sem se sujeitar ao caminho clandestino.
Efeito Trump
O aumento da chegada de cubanos ao Brasil coincide com as medidas mais restritivas na fronteira dos Estados Unidos desde a volta de Donald Trump à Presidência, em 2025.
Também reflete o fechamento de um “corredor migratório” na América Central para o cubanos.
Em 2021, o governo da Nicarágua eliminou a exigência de visto para cubanos, permitindo que milhares voassem legalmente para Manágua. A partir dali, muitos cubanos que deixavam a ilha para trás seguiam por terra através de Honduras, Guatemala e México rumo à fronteira dos EUA.
Mas, em 8 de fevereiro deste ano, após pressão americana, a Nicarágua encerrou a entrada sem visto para cidadãos cubanos. Um dos únicos países que não exigem o visto passou a ser justamente a Guiana.
O recorde também acontece em meio à grave crise econômica e o colapso das usinas termelétricas que levam a apagões diários no país. O embargo econômico americano a Cuba, vigente há décadas, se intensificou como nunca havia se visto antes.
Desde a captura do ex-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, pelos EUA, Cuba também perdeu seu maior fornecedor de petróleo, levando a uma crise generalizada de desabastecimento no país. Trump ameaçou impor tarifas de importação a qualquer país que envie petróleo para a ilha.
Escala no Brasil
Segundo a pesquisadora Marcia Maria de Oliveira, menos da metade dos cubanos com quem ela conversa nos centros de acolhida de Boa Vista tem intenção de ficar no Brasil.
A maioria, diz, pretende seguir viagem a outros países da América do Sul que falam espanhol, como Argentina e Uruguai, ou à América do Norte.
Segundo dados da PF, em 2025, 21 mil cubanos entraram oficialmente pelas fronteiras do Brasil e 5,4 mil saíram pela fronteira de Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, com o Uruguai.
Outros, diz a pesquisadora, têm a ideia de pedir refúgio no Brasil para, depois de três meses, solicitar reassentamento em países como Canadá – mecanismo pelo qual refugiados reconhecidos podem ser transferidos para um terceiro país que concorde em recebê-los e oferecer proteção permanente. (As informações são da BBC Brasil e g1)