Quarta-feira, 07 de Janeiro de 2026

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Genética, lã e carne voltaram ao centro das decisões no campo

O ciclo de feiras de verão da ovinocultura no Rio Grande do Sul inicia em janeiro com um clima de otimismo que há anos não se via no setor. De Bagé a Jaguarão, os eventos se multiplicam em um cenário de recuperação dos preços da lã e da carne ovina, fatores que reacendem o interesse por investimentos em genética e qualificação dos rebanhos. Criadores, técnicos e entidades enxergam nesse calendário não apenas oportunidades comerciais, mas também um marco simbólico de retomada gradual e consistente da atividade.

A programação começa com a 18ª Agrovino, de 13 a 17 de janeiro, em Bagé. Na sequência, a 48ª Feira de Ovinos de Verão, em Sant’Ana do Livramento, de 22 a 24 de janeiro. O calendário segue com a tradicional 42ª Feovelha, de 28 de janeiro a 2 de fevereiro, em Pinheiro Machado, continua com a 48ª Expofeira de Ovinos de Verão, de 4 a 8 de fevereiro, em Herval, e se encerra com a 52ª Exposição de Ovinos Meia Lã, em Jaguarão, de 27 de fevereiro a 1º de março. Juntas, essas feiras formam um mosaico da ovinocultura gaúcha, conectando diferentes regiões e realidades produtivas.

Genética, lã e carne voltaram ao centro das decisões no campo

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), Edemundo Gressler, o momento é de cautela, mas com sinais claros de avanço. “Estamos observando uma melhora no mercado da lã, especialmente das lãs finas, que voltaram a ter valorização e remuneração significativa ao produtor. Não é euforia, mas é um avanço importante em relação ao que vivíamos”, afirma.

Na carne ovina, o cenário também é positivo. O preço do quilo do cordeiro gira em torno de R$ 14, patamar considerado atrativo. “A valorização da carne, somada à recuperação da lã, cria um ambiente mais seguro para o produtor. Isso nos coloca diante de um novo momento da ovinocultura como atividade com boa remuneração dentro do agro”, observa Gressler.

Esse contexto se reflete diretamente no papel das feiras. “Quando o mercado reage, o investimento volta. E o investimento passa pela aquisição de reprodutores e matrizes superiores, animais avaliados por técnicos e que representam o avanço genético dos rebanhos”, explica. Para ele, as exposições concentram o que há de melhor na produção ovina, funcionando como vitrine de genética de alto nível, tanto para lã quanto para carne.

Mais que negócios: cultura e estratégia

Além da comercialização, as feiras cumprem papel social e institucional. Elas envolvem julgamentos, campeonatos, mostras de artesanato e mobilizam sindicatos e entidades locais. “Fazer uma feira não é simples. É um trabalho que exige dedicação e precisa ser reconhecido”, ressalta o dirigente.

Outro ponto estratégico é o alinhamento com o ciclo reprodutivo dos rebanhos. Entre janeiro e março, muitos plantéis entram em fase de encarneiramento. A compra de reprodutores nesse período é decisiva para garantir avanços em precocidade, ganho de peso e qualidade da lã. “O momento positivo nos conduz ao investimento em genética. É isso que esse ciclo de exposições oferece”, resume Gressler.

Um setor em reconstrução

A retomada da ovinocultura gaúcha não se dá apenas pela lógica de mercado. Há também um componente de reconstrução histórica. Após anos de retração, marcada pela queda nos preços e pela migração de produtores para outras atividades, o setor volta a se organizar em torno de feiras que funcionam como pontos de encontro e de reafirmação da identidade cultural do campo.

De acordo com técnicos, a valorização da lã fina recoloca o Rio Grande do Sul em posição estratégica no mercado internacional, enquanto a carne ovina ganha espaço no consumo interno, especialmente em nichos de restaurantes e supermercados que buscam diferenciação. Essa combinação de fatores cria um ambiente de confiança e abre espaço para novos investimentos em tecnologia, manejo e sanidade.

Feiras de verão

O ciclo de feiras de verão, portanto, não é apenas uma agenda de eventos, mas um termômetro da ovinocultura gaúcha. Ele sinaliza que genética, lã e carne voltaram ao centro das decisões no campo. Para os produtores, é a chance de reposicionar a atividade como alternativa rentável e sustentável dentro do agronegócio. Para as entidades, é o momento de reforçar a importância da organização coletiva e da valorização institucional.

Seja em Bagé, Sant’Ana do Livramento, Pinheiro Machado, Herval ou Jaguarão, o recado é claro: a ovinocultura gaúcha está em movimento. E esse movimento, ainda que gradual, aponta para um futuro de maior segurança econômica, qualificação dos rebanhos e fortalecimento da tradição que há séculos marca o campo no Rio Grande do Sul. (Por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)

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