Sexta-feira, 19 de Julho de 2024

Home Economia Fim do crédito rotativo nos cartões de crédito volta ao debate

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A proposta de fim do rotativo no cartão de crédito não é nova. Desde pelo menos 2017, vem sendo discutida pela indústria com o Banco Central (BC), na época comandado por Ilan Goldfajn. Mas a ideia nunca foi adiante porque os bancos alertavam que a medida afetaria o equilíbrio que permite o parcelado sem juros no País. Agora, a proposta pode ganhar força com o argumento da educação financeira, mesmo princípio por trás do Desenrola, programa de renegociação de dívidas que o governo quer implementar.

Atualmente, quem fica no rotativo por mais de 30 dias migra automaticamente para um parcelamento, conforme regra criada em 2017. “O que estão estudando é fazer isso para 100% e acabar com o rotativo, mas ainda é estudo, não tem nada definido”, diz o executivo de um grande banco.

Outra fonte com conhecimento do assunto diz que, apesar de estarem sendo discutidas várias alternativas, como a cobrança de taxa fixa no parcelado ou o aumento da tarifa de intercâmbio, incidente sobre as transações com cartões, não há saída que não passe pelo fim do rotativo. “Pode ser feito algo gradual, avisar as pessoas que vai acabar e ir reduzindo os prazos aos poucos. O rotativo é um câncer que prejudica o produto cartão de crédito, não há solução estrutural sem acabar com ele”, diz.

Um terceiro executivo pondera que o fim do rotativo esbarra em outro problema: o patamar de juros que será praticado no parcelamento com o passar do tempo. “É muito fácil falar, mas qual taxa será cobrada se não tiver o rotativo? Ainda pode ser considerada alta. Não necessariamente resolve o problema.”

A extinção do rotativo significa que, se o cliente não pagar a fatura no dia do vencimento, automaticamente será é direcionado para outra linha de crédito, com prazo fixo e juros menores. Como não há os juros sobre juros, que geram a famosa bola de neve no cartão, a lógica é que o usuário consegue se planejar melhor e pagar as parcelas. Mas deve ser criada alguma trava para impedir que recorra a esse mecanismo seguidamente. Para os bancos, a vantagem é que o nível de provisão exigido será menor.

Os juros no rotativo do cartão, de 430,5% ao ano, são considerados uma “aberração” até mesmo pelos bancos, e são alvo fácil de críticas do governo e de políticos. O setor admite que a taxa é alta, mas alega que ela é fruto de problemas estruturais, e que a cadeia do cartão de crédito é extremamente complexa. Assim, alterações açodadas poderiam acabar afetando o instrumento, responsável por boa parte do consumo das famílias.

No mês passado, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, se reuniu com a Febraban e com CEOs de instituições financeiras privadas. Antes do encontro, o ministro dizia que seriam discutidas alternativas para os juros no cartão. Saiu da reunião mais comedido, afirmando que um grupo de trabalho seria criado.

A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, tem criticado fortemente as taxas de juros e o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) protocolou projeto de lei que estipula um teto de juros sobre as faturas de cartão de crédito de pessoas físicas e microempreendedores individuais.

Muita gente na indústria diz que um dos grandes problemas do juro no cartão é o parcelado sem juros, “jabuticaba” brasileira que não existe em nenhum outro lugar do mundo. Mas parte do setor defende que essa relação não existe. Há quem diga também que a proposta de migração para um parcelado com juros (crediário ou outra forma de crédito) é uma maneira de os bancos tentarem compensar uma eventual perda de receita com o fim do rotativo.

“Os bancos deveriam aceitar que vão perder receita no curto prazo com o fim do rotativo, mas vão ganhar em termos de sustentabilidade financeira desse cliente no médio a longo prazo”, diz uma fonte. Apesar da inadimplência recorde de 48,2% no rotativo, com os juros de mais de 430% os bancos ainda ganham com essa linha.

Procurada, a Febraban afirmou que está em meio a discussões técnicas com a Fazenda e o BC sobre ações que possam reduzir o custo do crédito rotativo. “Ainda não há definição sobre as medidas que serão adotadas.”

Vice-presidente executivo da Abecs, que representa o setor de cartões, Ricardo Vieira disse ao Valor que a associação espera apresentar ao BC na primeira quinzena de junho propostas que ajudem na redução dos juros do rotativo. A associação discute junto a consultorias a construção de alternativas.

Para participantes da indústria, uma solução vai depender do nível de pressão exercido pelas autoridades e se elas conseguirão convencer a população com o argumento de educação financeira. O risco é que opositores apelem para uma narrativa de que o fim do rotativo significaria que as pessoas automaticamente perderiam os limites nos cartões.

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