Quarta-feira, 30 de Setembro de 2026

Home Variedades Fonoaudióloga explica porque não podemos corrigir a criança quando ela fala errado

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Tem palavras que parecem pequenas para nós, mas que são enormes para uma criança. “Bicicleta”, por exemplo. Para um adulto, é só uma palavra. Para uma criança de três anos, pode ser um verdadeiro desafio: são várias sílabas, diferentes sons e muitos movimentos que precisam acontecer em sequência, com precisão e rapidez. E é justamente por isso que, nessa fase, algumas palavras ainda podem sair “do jeitinho da criança”.

Às vezes, uma sílaba desaparece. Um som é trocado. Outro é simplificado. E aquela palavra que conhecemos tão bem ganha uma versão própria na fala da criança, muitas vezes tão encantadora que dá até vontade de deixá-la daquele jeitinho.

E não precisamos corrigir a criança a todo momento. Mas, isso não significa deixar de oferecer o modelo correto. Se ela disser “biciqueta”, por exemplo, podemos acolher o que foi dito e responder naturalmente: “Isso, a bicicleta! Vamos andar de bicicleta?”

Sem pedir que repita. Sem apontar o erro. Apenas mostrando, dentro da conversa, a forma correta de dizer. Isso acontece porque a fala ainda está amadurecendo.

Falar exige muito mais do que saber o nome das coisas. A criança precisa organizar sons, planejar movimentos, coordenar língua, lábios, mandíbula, respiração e voz. Tudo isso acontece em uma velocidade impressionante.

E ninguém aprende essa sequência de um dia para o outro. A fala vai sendo construída aos poucos.

Primeiro, vêm produções mais simples. Depois, combinações maiores. Aos poucos, os movimentos ficam mais precisos, as palavras ganham mais clareza e aquilo que antes parecia difícil começa a sair com mais naturalidade.

Por isso, é importante tomar cuidado com uma expectativa muito comum: a de que uma criança pequena já precise falar tudo perfeitamente. Não precisa. O que precisamos observar é o caminho.

A fala está ficando mais compreensível? A criança está conquistando sons novos? Palavras que antes eram difíceis começam a aparecer de maneira mais organizada? Existe evolução ao longo dos meses?

Esses sinais dizem muito mais do que uma palavra isolada. Porque falar não é passar em uma prova. É se comunicar. É contar o que aconteceu, pedir, chamar, brincar, dividir uma ideia e conseguir se fazer entender.

E, claro, existem situações em que as trocas merecem um olhar mais cuidadoso. Quando a fala permanece muito difícil de compreender, quando há muitas omissões ou trocas, quando a criança se irrita por não conseguir ser entendida ou quando percebemos pouca evolução ao longo do tempo, uma avaliação fonoaudiológica pode ajudar a entender melhor esse processo.

Importante lembrar ainda que desenvolvimento precisa de tempo. Nem toda palavra difícil precisa sair perfeita logo de início. Algumas vão sendo construídas aos poucos, entre uma tentativa e outra, até que a criança encontre a forma mais precisa de dizê-las.

Hoje pode ser “biciqueta”. Depois, “bicicreta”. Até que um dia, no meio de uma conversa qualquer, venha “bicicleta”.

E, talvez, seja justamente essa uma das belezas do desenvolvimento da fala: perceber o crescimento acontecendo diante dos nossos ouvidos. Aquelas palavras tão próprias da infância, que um dia nos fizeram sorrir, vão mudando aos poucos. E, junto com elas, surge uma voz cada vez mais clara, mais segura e mais cheia de intenção. (Por Adriana Fiore)

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