Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2026

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Para os que ainda não estão a par do “free flow”, aqui vai um resumo.

Trata-se de uma nova modalidade de cobrança para utilização de estradas, também conhecidos como pedágios, porém sem os guichês.

O carro é identificado por câmeras e registra que utilizou a via.

Feito o esclarecimento, vamos adiante.

Os pedágios começaram lá pelos anos 1970. Eram tímidos e vieram devagarinho.

Eram tratados como caminho natural. Quem falava mal era negacionista da realidade e da modernidade.

As justificativas?

As mesmas de sempre: prestação de serviços e manutenção das rodovias. Qualidade e segurança são argumentos muito fortes. Quem vai ser contra?

O tempo foi passando, aumentou a frota de veículos particulares e de caminhões, carretas e bi-trens e, enfim, a conta chegou.

A ideia da cobrança sem praça de pedágio, o famigerado “free flow”, eita nomezinho “bem marketeado”, que tenta se justificar com a facilitação da cobrança pelo uso das rodovias.

As tradicionais praças de pedágio ao menos têm, ou tinham, um ponto de parada seguro na rodovia, com sanitários e local para descanso, que provavelmente irão terminar pelo custo da mão de obra de manter as praças ativas, acredito.

É sabido que a construção e manutenção de rodovias é muito cara, sim, isso é fato.

Há também quem diga que os pedágios são justos, uma vez que paga quem transita, daí uma mentira grossa que nos empurram goela abaixo.

Primeiro:

O peso médio do automóvel é entre 900 e 1.300 kg.

O peso de caminhões e carretas está entre 33 e 74 t, isso mesmo, 74 toneladas!

Os automóveis normalmente estão em maior velocidade, enquanto os caminhões e carretas trafegam em baixa velocidade, causando maior impacto no assoalho da estrada.

Considere também que, nas frenagens, uma carreta provoca uma carga muito maior contra o piso asfáltico.

Assim, os caminhões de carga e carretas são muitas vezes mais responsáveis pelo desgaste nas rodovias do que os automóveis.

Ahh! Mas também é cobrado pedágio de caminhões e carretas!

Sim! Porém, não na mesma proporção do peso do veículo.

Segundo:

E o mais grave.

Os veículos de carga (transportadores) transferem o custo dos pedágios para o valor do frete cobrado ao cliente.

O cliente (dono da mercadoria), seja varejista ou atacadista, transfere o custo do frete/pedágio para as suas mercadorias.

Não tem almoço grátis, lembra?

A gelatina, a cerveja ou o remédio do mercado ou da farmácia têm, em sua planilha de custo, o transporte/pedágio embutido no produto.

Em última análise, quem paga os pedágios são os veículos particulares e, indiretamente, todos que compram produtos transportados.

Resumo:

Quem paga o free flow ou pedágio é o consumidor, direta ou indiretamente.

A origem:

Ao longo de décadas, o país abandonou a malha ferroviária e deu de ombros para as hidrovias.

O planeta todo sabe que transporte de cargas acima de 300 km deve ser por via ferroviária ou hidroviária.

Cabe às rodovias fazer a capilaridade do transporte de cargas.

O que fazemos aqui equivale a transportar, em baixa tensão, energia elétrica de Itaipu até Porto Alegre.

Os gestores públicos fazem uma política de governo e não de Estado.

O que temos hoje?

Consequências de escolhas erradas de governos que querem só executar se for inaugurado em seu próprio governo.

Para remediar um problema estrutural, os governos jogam nas costas do contribuinte a falta de um planejamento de longo prazo.

Conclusão:

Os altos custos de manutenção das estradas por causa de caminhões e jamantas, somados ao lucro da concessionária para a gestão da estrada, são pagos integralmente por quem menos danifica o piso da estrada e até por quem nem anda nela.

A modelagem de pedágio tipo free flow é a consequência de políticas irresponsáveis e simplistas, de visão imediatista, que transferem para a sociedade a sua própria incompetência para realizar políticas de longo prazo.

As ferrovias e hidrovias são o caminho que, cedo ou tarde, irão retomar o protagonismo no transporte de cargas de longo curso.

Até lá, pagaremos caro por nossas escolhas equivocadas.

* Rogério Pons da Silva – rponsdasilva@gmail.com

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