Domingo, 08 de Março de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 8 de março de 2026
Há duas coisas que um militar nunca entrega quando deixa o quartel: a memória do dever e a guarda da honra. O uniforme pode ser dobrado com cuidado, a espada pode repousar na parede, e a patente pode passar à reserva. Mas a honra — essa não se aposenta. Ela permanece como uma sentinela invisível que vigia a história de um homem.
Na vida das armas, a honra não é ornamento. É fundamento.
O General Augusto Heleno Ribeiro Pereira é um dos oficiais mais conhecidos do Exército brasileiro nas últimas décadas. Sua trajetória reúne aquilo que a tradição militar sempre valorizou: formação rigorosa, comando de tropas, atuação em missões internacionais e participação na vida pública do país.
Formado em 1969 pela Academia Militar das Agulhas Negras, na arma de Cavalaria, ingressou na carreira das armas em uma geração que aprendeu cedo que disciplina não é apenas regra — é caráter em construção. A Cavalaria, dizem os antigos, ensina mais do que manobras e estratégias. Ensina movimento, coragem e decisão. O cavaleiro aprende que, diante da poeira da estrada e da incerteza do terreno, o pior inimigo do comando é a hesitação.
Ao longo de décadas de serviço, Heleno percorreu a carreira militar dentro da lógica silenciosa da caserna: cumprir missões, assumir responsabilidades e liderar homens. A liderança militar não nasce de discursos inflamados, nasce da presença.
Nos quartéis, costuma-se repetir uma máxima simples e profunda:
“O exemplo arrasta, a palavra apenas orienta.”
Não é apenas uma frase. É um princípio de liderança. O comandante verdadeiro não fala sobre coragem; ele caminha à frente quando o terreno se torna difícil.
É justamente nesse cenário que surge uma das mais delicadas discussões envolvendo a trajetória de um oficial-general brasileiro. Um parecer busca ver declarado o General de Exército reformado Augusto Heleno indigno para o oficialato, com a consequente perda de seu posto e de sua patente.
Não se trata de um detalhe administrativo. Trata-se de uma das decisões mais graves que a vida militar conhece.
A perda do posto e da patente equivale, simbolicamente, a retirar de um oficial a espada que o Estado lhe confiou. Não apenas a espada de aço, mas aquela invisível que representa honra, responsabilidade e compromisso com a instituição.
Por isso, tal medida jamais pode nascer de automatismos ou de ambientes carregados pela paixão política. Exige prova, fundamentação e aquilo que sustenta qualquer ordem jurídica civilizada: o devido processo.
O que está em jogo não é apenas a situação de um indivíduo. Está em jogo o próprio sentido da honra militar e a forma como o Estado lida com aqueles que um dia confiaram sua vida à defesa da nação.
A Justiça Militar não foi criada para ecoar decisões alheias nem para funcionar como carimbo institucional de narrativas prontas. Sua missão é examinar, ponderar e decidir com serenidade e rigor.
Quando se fala em honra militar, não se fala de abstrações. Fala-se de conduta pessoal, responsabilidade individual e prova concreta. A honra não pode ser julgada por aproximação, conjectura ou associação genérica. Ela só pode ser atingida quando houver ato pessoal claramente demonstrado, nexo direto entre a conduta e o resultado e culpabilidade efetivamente comprovada.
Sem isso, o julgamento deixa de ser Justiça e passa a se aproximar de algo perigoso: um sacrifício público.
Há momentos na história em que as instituições são chamadas a demonstrar maturidade. Não pelo volume de decisões, mas pela profundidade delas. Quando se discute a honra de um general reformado, essa responsabilidade cresce ainda mais.
Não se trata de ato burocrático. Trata-se de decisão que exige densidade jurídica, coragem institucional e responsabilidade histórica.
Porque a honra militar não existe para servir a conjunturas. Ela existe para sustentar a própria ideia de Estado.
O militar aprende cedo a obedecer, mas aprende também que a obediência virtuosa caminha lado a lado com a consciência do dever. E o dever, neste momento, exige lembrar algo simples: honra não se destrói por conveniência.
Justiça não se constrói por atmosfera.
Resta confiar que o Superior Tribunal Militar saberá cumprir aquilo que a história sempre exigiu das instituições sérias: aplicar o Direito com serenidade, examinar as provas com rigor e preservar o elo profundo que sustenta a vida militar.
Porque, no fim das contas, uniformes podem ser guardados, espadas podem ser embainhadas e patentes podem ser aposentadas.
Mas a honra verdadeira tem uma peculiaridade rara: ela não depende do poder para existir — apenas da verdade para permanecer.

Alexandre Teixeira G. de Castilhos Rodrigues, advogado e escritor
Instagram: @castilhosadv
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