Domingo, 01 de Fevereiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 29 de janeiro de 2026
Os escândalos recentes envolvendo a Americanas e o Banco Master abalaram não apenas investidores, clientes e trabalhadores. Abalaram algo mais profundo: a confiança de que existem instituições capazes de vigiar, prevenir e corrigir abusos antes que eles se tornem tragédias coletivas. Quando empresas quebram e arrastam milhares de pessoas, e quando órgãos de controle parecem chegar tarde demais, a sensação é a de que estamos “a descoberto”, expostos à ambição sem freios de dirigentes e à fragilidade da governança, privada e pública.
Peter Drucker, o chamado “pai da administração moderna”, volta a ser leitura obrigatória diante dos atuais escândalos corporativos. Em 1976, ele afirmou: “Sempre que uma instituição tem um desempenho ruim, é fútil culpar o homem. É a instituição que tem um desempenho ruim.” Drucker não estava absolvendo indivíduos inescrupulosos, mas apontando algo mais estrutural: pessoas falham, sim, mas falham sobretudo quando estão inseridas em sistemas que permitem, estimulam ou não impedem o erro.
No caso Americanas, não foi apenas um diretor ou um CEO que errou. Houve uma cultura, processos internos, conselhos, auditorias e agências de risco que não fizeram, ou não quiseram fazer, as perguntas difíceis. Onde estavam os mecanismos de questionamento real? Quem desafiava os números? Quem perguntava “o que deveríamos abandonar?” ou “quais riscos estamos assumindo contra os interesses da sociedade e dos investidores?”
Já no caso do Banco Master, o problema ultrapassa o setor privado e adentra à esfera pública. Quando instituições como o Banco Central e outros órgãos de controle falham em perceber, agir ou comunicar riscos com a devida rapidez, o dano é ampliado. A governança pública, assim como a corporativa, não pode ser apenas formal, burocrática ou reativa. Ela precisa ser ativa, independente e orientada ao interesse coletivo, não à conveniência política nem à captura por grupos econômicos.
Drucker defendia que toda organização precisa de um órgão verdadeiramente independente, cuja função seja fazer as perguntas incômodas:
Qual é a nossa missão? Quem são os stakeholders e o que eles legitimamente esperam de nós? Quais resultados realmente importam? O que estamos deixando de ver por comodidade, medo ou conivência?
Essas perguntas valem tanto para conselhos de administração quanto para agências reguladoras, tribunais de contas, ministérios e autarquias. No Brasil, muitas vezes temos estruturas de controle, mas não temos, na mesma medida, cultura de controle. Há normas, mas nem sempre há coragem institucional. Há cargos, mas nem sempre há independência. Há relatórios, mas nem sempre há ação.
A ganância, como Drucker alertava, é corrosiva. Ela destrói a cultura das organizações, contamina decisões e enfraquece o próprio capitalismo ao transformar o lucro de curto prazo no único valor relevante. Quando esse vírus entra também nas instituições públicas, seja por omissão, por aparelhamento ou por acomodação, o dano é duplo: econômico e democrático.
Valorizar a governança não é enfraquecer gestores nem reguladores. É, ao contrário, dar-lhes o suporte ético e institucional para que o bom trabalho possa emergir sem ser sufocado por incentivos perversos. Governança é o que impede que o talento seja sequestrado pela ambição desmedida. É o que protege a sociedade de ser refém de poucos.
Drucker afirmava que não basta confiar em homens e mulheres “bem-intencionados”. É preciso construir instituições que não dependam da virtude individual para funcionar corretamente. A boa governança existe justamente para quando a virtude falha.
O Brasil precisa aprender, com urgência, que escândalos financeiros não são apenas desvios morais individuais. São sintomas de falhas institucionais profundas, no setor privado e no público. Enquanto não fortalecermos a cultura de governança, de independência e de prestação de contas real, continuaremos expostos. Não à falta de regras, mas à falta de coragem para fazê-las valer.
(Instagram: @edsonbundchen)