Quinta-feira, 02 de Abril de 2026

Home Colunistas Habermas e a crise da comunicação democrática

Compartilhe esta notícia:

No último dia 14.03.2026, morreu o filósofo e sociólogo alemão, Jürgen Habermas, aos 96 anos. Ler Habermas sempre foi um exercício de exigência ética. Sua filosofia partia da convicção de que a vida pública não pode ser entregue à manipulação ou à degradação da palavra. Em um tempo marcado pelo ruído e pela mentira como estratégia, ele foi uma voz da razão crítica, do diálogo e da defesa da democracia.

A morte de Jürgen Habermas encerra simbolicamente um capítulo da filosofia política que buscou reconstruir a legitimidade democrática após as tragédias do século XX. Poucos pensadores influenciaram tanto a compreensão da relação entre democracia, linguagem e legitimidade. Sua obra procurou responder como sociedades complexas podem tomar decisões coletivas de modo legítimo, questão hoje mais atual do que nunca.

Sua resposta foi comunicativa. Democracias não se sustentam apenas em eleições ou instituições, mas na qualidade do debate público. A legitimidade nasce de processos discursivos nos quais posições são justificadas, criticadas e debatidas. O “agir comunicativo” pressupõe disposição para convencer, não apenas vencer. A nova aldeia digital, com suas complexidades, desafia justamente essa lógica.

O momento de sua morte é simbólico. O mundo assiste a agudização de guerras, polarização e mudanças profundas na comunicação política. O estilo que ganhou projeção global na última década, exemplificado por Donald Trump, opera em lógica oposta à habermasiana: em vez da comunicação, a imposição, em vez da transparência dialógica, o regateio retórico obscuro. Isso, definitivamente, é a antítese de um “agir comunicativo”.

Mas, mesmo afrontando a linha doutrinária de Habermas, não se pode negar que Trump é também um fenômeno comunicacional. Sua retórica evita mediações tradicionais e busca conexão direta com o público por meio de slogans, antagonismos e apelo emocional. Não persuade por argumentos, mas constrói identidades políticas por narrativas.

Sob a ótica de Habermas, isso se aproxima da “ação estratégica”, onde a linguagem deixa de buscar entendimento e passa a produzir efeitos, tais como mobilizar, deslegitimar, moldar percepções. O consenso dá lugar à disputa por atenção e lealdade. O diálogo é substituído por narrativas excludentes.

Isso se evidencia na política externa. Em crises internacionais, decisões são apresentadas menos como processos abertos à crítica e mais como narrativas para consolidar apoio interno. Simplificação de conflitos e dramatização de riscos tornam-se centrais. Nada mais emblemático do que a narrativa adotada por Trump em relação à guerra contra o Irã.

Habermas antecipou esse cenário ao falar da “colonização do mundo da vida”: sistemas orientados por poder, Estado, mercado e mídia, invadem espaços que deveriam ser regidos pelo entendimento mútuo. O debate público passa então a seguir a lógica da eficácia e da manipulação simbólica.

O ambiente digital intensifica esse processo. Redes sociais e ciclos informativos acelerados favorecem mensagens rápidas, polarizadoras e emocionais. Em vez de promover consenso, frequentemente criam bolhas autossuficientes, reforçadas por algoritmos.

Isso não condena a democracia, mas pressiona sua base comunicativa, aquilo que Habermas via como seu alicerce.

Seu maior legado talvez esteja na ideia de que democracias dependem de práticas comunicativas. Todo discurso público envolve três pretensões: verdade factual, correção normativa e sinceridade. Uma esfera pública saudável permite que essas dimensões sejam testadas e debatidas.

Quando esse processo se enfraquece, o debate que se deteriora, e a própria legitimidade democrática claudica.

A morte de Habermas ocorre, assim, em um momento em que suas ideias se tornam urgentes. Em uma era de comunicação instantânea e disputas narrativas, retorna a questão central de sua obra: como preservar uma política baseada em razões quando a comunicação se orienta cada vez mais pela estratégia e pelo impacto? Responder a essa pergunta é um dos grandes desafios das democracias no século XXI.

(Instagram: @edsonbundchen)

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Colunistas

Sobre a evolução da economia brasileira na redemocratização
Quinta-feira Santa e a Ceia do Cordeiro Pascal: o banquete da renovação humana
Deixe seu comentário
Baixe o app da RÁDIO Pampa App Store Google Play
Ocultar
Fechar
Clique no botão acima para ouvir ao vivo
Volume

No Ar: Programa Pampa Na Madrugada