Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2026

Home Colunistas IA, multipolaridade e o risco de uma desordem permanente

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O mundo atravessa duas transformações simultâneas que, combinadas, podem redefinir o século XXI: o ataque à hegemonia americana e a difusão acelerada da Inteligência Artificial.

Separadamente, cada uma já seria de grande importância. Juntas, criam um ambiente internacional de alta capacidade tecnológica e baixa capacidade de coordenação política, uma fórmula clássica para instabilidade prolongada.

A ordem construída após 1945, e reforçada após o fim da Guerra Fria, apoiava-se em três pilares: liderança econômica dos Estados Unidos, instituições multilaterais relativamente eficazes e um consenso mínimo em torno da globalização e da democracia liberal. Esse arranjo vem erodindo desde a década passada. A ascensão da China, a fadiga da globalização, a polarização nas democracias e a crise de legitimidade das elites políticas já apontavam para uma transição. A Inteligência Artificial, porém, altera a natureza dessa mudança.

A IA não é apenas mais uma inovação. Ela atua como acelerador sistêmico. Ao automatizar tarefas cognitivas, redefine os mecanismos de geração de riqueza. Ao baratear a projeção de poder, transforma a lógica da competição estratégica. Ao permitir a produção massiva de informação sintética, fragiliza o ambiente informacional que sustenta a legitimidade política.

No plano econômico, a promessa de crescimento sem emprego em larga escala ameaça o coração do contrato social das democracias industriais. O trabalho assalariado foi o principal instrumento de integração social e mobilidade. Se a IA concentra valor em poucos ecossistemas tecnológicos e reduz a centralidade do trabalho, cresce a pressão sobre modelos fiscais, previdenciários e identitários. Não se trata apenas de produtividade, mas de pertencimento. A crise do trabalho tende a se converter em crise política.

Geopoliticamente, a multipolaridade que emerge é imperfeita. Nenhum ator reúne hoje as quatro funções que os EUA exerceram por décadas: prover liquidez, garantir segurança, definir regras e oferecer referência normativa. A China é um polo econômico, mas não um arquiteto institucional global. A União Europeia regula, mas projeta pouco poder. Potências regionais ampliam autonomia sem oferecer governança. O resultado é uma multipolaridade sem coordenador, marcada por regionalização produtiva, coalizões circunstanciais e competição tecnológica como eixo central do poder.

Diferentemente das armas nucleares, que exigem Estados robustos, capacidades ofensivas baseadas em IA requerem computação, dados e especialistas. Isso “democratiza” a interferência internacional. Surgem as guerras epistêmicas: não se busca convencer o adversário, mas corroer a possibilidade de consenso factual dentro das sociedades. Conteúdos sintéticos verossímeis, manipulações psicológicas e simulação de movimentos sociais artificiais tornam as democracias abertas especialmente vulneráveis.

A competição entre potências alimenta corridas tecnológicas não reguladas, a automação reduz interdependência produtiva, a polarização doméstica é amplificada por manipulação informacional e a ausência de liderança global impede a construção de normas para a IA. Enquanto a capacidade de transformação cresce, a capacidade de coordenação encolhe.

A nova base do poder internacional já não é apenas territorial ou militar. Está em semicondutores avançados, infraestrutura de dados, modelos fundacionais e ecossistemas científicos integrados. A geopolítica do século XXI gira em torno de quem controla essas cadeias críticas. Alianças e dependências passam a ser definidas mais por chips e códigos do que por tanques e tratados.

Há três trajetórias possíveis. A mais desejável seria uma multipolaridade regulada, com coordenação mínima entre potências para mitigar riscos tecnológicos e preservar a estabilidade econômica. A mais provável é a competição tecno-nacional administrada: blocos rivais mantêm interdependência seletiva, enquanto disputam supremacia em IA. A mais perigosa é a fragmentação sistêmica, com regionalização extrema e conflitos híbridos constantes.

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