Segunda-feira, 05 de Janeiro de 2026

Home Colunistas Índia 2026: potência econômica, fragilidade ambiental

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A Índia anunciou no fim de 2025 que ultrapassou o Japão e se tornou a quarta maior economia do mundo, com um PIB estimado em US$ 4,18 trilhões. O governo projeta que, em até três anos, poderá superar a Alemanha e alcançar a terceira posição no ranking global, atrás apenas dos Estados Unidos e da China. O Fundo Monetário Internacional (FMI) confirma essa tendência, prevendo que o PIB indiano chegará a US$ 4,51 trilhões em 2026, consolidando a ultrapassagem sobre o Japão.

O país vive um momento incomum de crescimento elevado combinado com inflação baixa. No segundo trimestre do ano fiscal de 2026, o PIB avançou 8,2%, o maior nível em seis trimestres, impulsionado pelo consumo doméstico. Exportações em expansão, reservas internacionais robustas e um déficit em conta corrente reduzido reforçam a narrativa de uma economia resiliente e ambiciosa.

Mas esse cenário de prosperidade contrasta com a postura da Índia na COP30, realizada no Brasil. Durante as negociações, o país manteve firme sua rejeição ao abandono dos combustíveis fósseis, defendendo que sua matriz energética ainda depende fortemente do carvão e que a transição deve ser gradual. As NDCs (Nationally Determined Contributions) — compromissos voluntários assumidos pelos países no âmbito do Acordo de Paris para reduzir emissões de gases de efeito estufa — foram apresentadas pela Índia com metas de expansão de energias renováveis, mas sem compromissos claros de eliminação do carvão. Essa posição gerou críticas, pois, ao mesmo tempo em que busca protagonismo econômico, o país se mostra reticente em assumir responsabilidades ambientais proporcionais ao seu tamanho.

O regime de governo da Índia é uma democracia parlamentar, marcada por uma pluralidade política intensa e por desafios de governança em um território vasto e diverso. Apesar do crescimento econômico, o país ainda enfrenta problemas graves de fome, miséria e doenças. Milhões de indianos vivem abaixo da linha da pobreza, e o acesso a saneamento básico e saúde pública continua limitado em muitas regiões.

É paradoxal que a Índia, berço de práticas de saúde natural como a Ayurveda e de religiões que moldaram sociedades inteiras — hinduísmo, budismo, jainismo e sikhismo —, esteja tão ansiosa em acelerar um modelo de crescimento baseado no consumo e na produção em larga escala. O hinduísmo, por exemplo, valoriza a harmonia com a natureza e o desapego material, enquanto o budismo prega a simplicidade e a busca por equilíbrio interior. No entanto, o governo indiano aposta em uma marcha acelerada rumo à industrialização e ao aumento da renda, estimulando o consumo de bens que, inevitavelmente, ampliam a pegada ecológica do país.

Esse paradoxo é revelador. De um lado, tradições milenares que exaltam a espiritualidade e a conexão com o natural; de outro, uma política econômica que prioriza o crescimento quantitativo, muitas vezes em detrimento da preservação ambiental. O aumento do consumo traz consequências éticas e filosóficas: até que ponto é legítimo estimular desejos materiais em uma sociedade que ainda convive com desigualdades profundas? E até que ponto o crescimento econômico pode ser considerado sucesso quando compromete o equilíbrio ecológico?

A Índia não está sozinha nesse dilema. Todas as nações enfrentam o mesmo desafio: regimes de governo tendem a priorizar riquezas e indicadores econômicos em detrimento da preservação ambiental. O paradoxo é global. O Brasil, a China, os Estados Unidos e a União Europeia também vivem tensões entre crescimento e sustentabilidade.

O caso indiano, no entanto, é emblemático porque expõe de forma clara a contradição entre tradição e modernidade, entre espiritualidade e materialismo, entre práticas naturalistas e industrialização acelerada. O país que deu ao mundo filosofias de desapego e equilíbrio agora se projeta como potência econômica baseada no consumo.

O futuro da Índia — e do planeta — dependerá da capacidade de conciliar esses extremos. Crescer é necessário, mas crescer com responsabilidade é vital. A COP30 mostrou que ainda há resistência, mas também abriu espaço para que países como a Índia revejam suas prioridades. O desafio é transformar riqueza em bem-estar coletivo sem destruir o ambiente que sustenta a vida.

Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética

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