Sábado, 11 de Abril de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 10 de abril de 2026
A investigação conduzida pelo Banco Central (BC) detectou indícios de que o ex-diretor de Fiscalização Paulo Sérgio Neves de Souza simulou a venda de um sítio em Minas Gerais para uma empresa controlada por Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, para ocultar recebimento de propina do Banco Master ou de pessoas ligadas ao grupo.
Em documento sigiloso, ao qual a Folha teve acesso, o BC afirma que há evidências de enriquecimento ilícito do servidor e que ao menos R$ 2,6 milhões do aumento do patrimônio de Souza são incompatíveis com os rendimentos dele – em fevereiro deste ano, o salário bruto do ex-diretor foi de R$ 37.067,28, segundo dados do Portal da Transparência.
Essas foram algumas das conclusões da sindicância patrimonial realizada pelo BC, de janeiro a março, que recomendou a instauração de um processo disciplinar administrativo contra o ex-diretor. O caso foi levado à CGU (Controladoria-Geral da União) e pode resultar na expulsão de Souza, se for considerado culpado.
A defesa dele disse que “não se tratou de venda simulada, mas venda efetiva de propriedade, a valor de mercado, à empresa vinculada a Fabiano Zettel”.
“A venda foi declarada em imposto de renda, devidamente documentada em escritura, com total transparência, sem qualquer finalidade de mascarar o pagamento de propina, ou qualquer vantagem indevida, por parte de Paulo Sérgio”, acrescentou.
A defesa do ex-diretor do BC disse ainda acreditar que, no âmbito da CGU, o processo “observará os princípios do contraditório e da ampla defesa, quando será comprovado que seus atos jamais objetivaram beneficiar o Banco Master, muito pelo contrário.”
“Desde a identificação de operações sem a devida fundamentação econômica e as devidas garantias, a partir de trabalho conduzido por sua equipe e oficializado à instituição financeira em setembro de 2024, até a liquidação do banco em novembro de 2025, muitos fatos ocorreram que, quando devidamente investigados e apurados, revelarão a verdadeira história e responsáveis”, complementou.
No centro da apuração do BC está a venda do sítio Mirante, que pertencia ao ex-servidor e a seu irmão Luís Roberto Neves de Souza. A propriedade, localizada em Juruaia (MG), foi comprada pela Pipe Participações, empresa cujo sócio-controlador e administrador é Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro.
Em depoimento colhido pela sindicância, em 23 de janeiro, Souza disse ter recebido uma ligação de Vorcaro em 2019 solicitando informações sobre o sítio e perguntando se poderia comunicar a intenção de venda a eventuais interessados. Zettel entrou em contato com o então diretor do BC, e o negócio se concretizou em janeiro de 2020.
Na oitiva, o ex-diretor afirmou que, na época das tratativas, desconhecia a relação de parentesco entre Zettel e Vorcaro e que só tomou conhecimento dessa conexão em janeiro de 2021, na lavratura da escritura da propriedade.
“(Zettel) reforçou que não tinha qualquer vínculo societário ou empregatício com o Banco Master, bem como não tinha sequer negócios em comum com sua esposa”, disse o servidor em manifestação complementar ao depoimento prestado ao BC.
Para a sindicância, a atuação de Vorcaro no processo “leva a crer que houve ação diretamente orientada a cooptar o servidor”. A investigação também disse não ver como provável que o servidor desconhecesse Zettel, figura presente em ações ligadas ao Master.
Souza trabalhou como diretor de Fiscalização do BC entre 2017 e 2023 e, depois disso, assumiu o posto de chefe-adjunto do departamento de Supervisão Bancária. Nessas posições, ele tinha grande poder de influência sobre instituições bancárias, inclusive sobre o Banco Master, e acesso a informações de alto valor para os entes regulados.
Em depoimento, ele negou qualquer favorecimento ao dizer ter defendido medidas que contrariavam os interesses do Master e ter informado seu sucessor na diretoria de Fiscalização, Ailton de Aquino, dos problemas envolvendo o banco de Vorcaro.
A investigação interna apontou também divergências entre os valores da operação de compra e venda do sítio em Minas Gerais. Nos documentos registrados em cartórios, consta a cifra de R$ 3 milhões pelo negócio. Em instrumentos contratuais apresentados, o montante total é de R$ 5,2 milhões. Na oitiva, o servidor mencionou proposta de R$ 4,8 milhões para pagamento em parcelas pelo prazo de cinco anos.
O ex-diretor do BC disse no depoimento ter recebido R$ 2,4 milhões pela venda do sítio (mesmo valor pago ao irmão). Segundo ele, os recursos foram usados para a liquidação de dívidas, para a construção da casa onde reside e em outros imóveis. (Com informações da Folha de S.Paulo)