Domingo, 29 de Março de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 28 de março de 2026
Irã estuda cobrar “pedágio” no estreiro de Hormuz e lucrar mesmo após o fim da guerra
O governo do Irã trabalha para estabelecer uma espécie de “pedágio” à passagem de navios pelo estreito de Hormuz, no Oriente Médio, com o objetivo de ampliar o controle e o lucro sobre uma rota marítima decisiva no comércio internacional de petróleo. Fontes internas sugerem que a medida poderá se estender mesmo após o fim da guerra com os Estados Unidos e Israel.
Na semana passada, o Ministério das Relações Exteriores do Irã informou que embarcações “não hostis” poderão atravessar o Estreito “em coordenação com as autoridades iranianas competentes, mas não Estados Unidos, Israel ou qualquer outro participante da agressão.
Chefe da pasta, Abbas Araghchi anunciou à TV estatal que será imposta uma nova ordem em Hormuz após a guerra, insistindo que o país exerce soberania na região, “mesmo que alguns prefiram considerá-lo águas internacionais”. Ele acrescentou: “Para o futuro, buscamos estabelecer novos arranjos para uma passagem segura”.
As declarações levantam questões amplas sobre o acesso a uma das rotas marítimas mais importantes do mundo –além de uma série de desafios práticos para as empresas de navegação.
O estreito de Hormuz, que tem apenas 21 milhas náuticas em seu ponto mais estreito, é dividido entre águas territoriais de dois países: Irã e Omã. Sua curva acentuada e as montanhas do lado iraniano, porém, oferecem linhas de visão ideais para que a Guarda Revolucionária de Teerã mire embarcações em trânsito.
“É o estreito menos ‘reto’ que existe”, ressalta Tom Sharpe, ex-comandante naval do Reino Unido. “Quando você está passando por ele, a ameaça pode vir de todas as direções.”
Nos últimos dias, o presidente norte-americano Donald Trump tem exigido repetidamente que o regime dos aitaolás reabra o estreito, por onde cerca de 20% das exportações mundiais do combustível passavam antes de o país persa fechá-lo para quase todo o tráfego marítimo, desde o início dos ataques militares.
Na quinta-feira (26), Trump ampliou novamente o prazo para que o Irã reabra o estreito até 6 de abril, sob pena de ataques à sua infraestrutura energética.
Taxa
Antes do conflito, cerca de 135 navios passavam diariamente pela via. Mas desde os primeiros ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, o tráfego caiu drasticamente. O período de 1º a 25 de março teve apenas 116 travessias –uma queda de 97% em relação ao mesmo período de fevereiro.
Embarcações que fizeram a travessia pertenciam, em grande parte, a proprietários chineses, indianos ou de países do Golfo Pérsico. Vários eram embarcações da chamada “frota-fantasma” e punidas por potências ocidentais por negociarem petróleo iraniano.
Alguns navios pagaram até US$ 2 milhões (cerca de R$ 10,6 milhões) ao Irã para garantir passagem segura pelo Golfo, segundo informaçõs extraoficiais empresa de segurança Lloyd’s List Intelligence.
Alaeddin Boroujerdi, membro sênior do Parlamento iraniano, afirmou à televisão estatal no domingo que qualquer embarcação que passe pela hidrovia estratégica deve pagar uma taxa nesse montante: “Um novo regime está sendo implementado na via marítima”.
O processo de aprovação envolve negociações entre governos com o Irã por meio de embaixadas nos países relevantes, conforme Martin Kelly, chefe de consultoria da Risk Group. A embarcação recebe então um código, que transmite pelo canal de rádio VHF 16 (frequência internacional de emergência) ao se aproximar do estreito. Enquanto isso, autoridades iranianas verificam a documentação, nacionalidade e destino.
Nenhuma das cargas que atravessaram o estreito desde o início das hostilidades tinha como destino os EUA ou a Europa. A maioria seguiu para o leste da Ásia, com algumas indo também para o leste da África e América do Sul, segundo dados de rastreamento marítimo.
A rota utilizada está totalmente dentro das águas territoriais iranianas, em vez das rotas tradicionais. Analistas sugerem que isso permite ao Irã verificar visualmente os detalhes das embarcações, apesar dos ataques dos EUA a seus radares e postos de observação. “Há uma estrutura evidente em funcionamento, há uma clara liderança”, diz Kelly.
Ao menos dois paquistaneses envolvidos em contatos informais com o Irã disseram que algumas embarcações de países terceiros estão mudando sua bandeira para a do Paquistão para conseguir atravessar o estreito. Um deles afirmou que os arranjos seriam “um gesto de boa vontade para Trump”.
A embaixada do Irã em Madri afirmou que Teerã está “receptivo” a pedidos de navios espanhóis para atravessar o estreito, considerando a Espanha “um país comprometido com o direito internacional”. O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, foi o primeiro líder europeu a criticar os ataques dos EUA e de Israel ao Irã.
Empresas de navegação que precisem pagar pela passagem teriam de contornar as sanções impostas ao regime iraniano e à sua Guarda Revolucionária, designada como organização terrorista pelos EUA, União Europeia e outros países ocidentais. (com informações da Folha de S.Paulo)