Quarta-feira, 01 de Abril de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 1 de abril de 2026
O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, disse ver como um problema o fato de boa parte da população considerar o rotativo do cartão de crédito como renda disponível. Para ele, o debate sobre o endividamento da população tem sido atravessado por fatores conjunturais e estruturais, com impactos diretos no custo de acesso ao crédito e na percepção que as famílias têm da própria situação financeira. Ele falou sobre o assunto ao participar na segunda-feira (30) do painel “BC: Perspectivas para a Economia Brasileira”.
De acordo com o banqueiro central, no contexto de aperto monetário, o encarecimento do crédito é apresentado como parte do mecanismo de transmissão da política monetária, que “gera restrições do ponto de vista do endividamento” e afeta o custo de tomar recursos. Ao mesmo tempo, de acordo com ele, a leitura do endividamento não é homogênea.
“Em pesquisas sobre o tema, aparece uma compreensão bastante heterogênea entre os brasileiros: muitas pessoas não se consideram endividadas se não houver atraso, mesmo quando têm financiamentos e parcelas em dia”, disse.
De acordo com o banqueiro central, a pressão sobre o orçamento é relacionada ainda a sucessivos choques de oferta, descritos como degraus no custo de vida. “Ainda que indicadores como desemprego baixo e inflação baixa possam estar presentes, esses choques alimentam a sensação de perda de poder aquisitivo, já que a população percebe o aumento no preço de itens básicos. Nesse cenário, o uso do rotativo do cartão de crédito aparece como um ponto crítico”, disse.
De acordo com Galípolo, o debate cita um produto com 60% de inadimplência, entendido como ruim tanto para quem oferece quanto para quem toma. Ele também disse que 40 milhões de pessoas físicas pagam juros de 15% ao mês no rotativo do cartão, além de boa parte da população tratar o rotativo como uma fatia da renda disponível, o que é problemático do ponto de vista estrutural e como algo que exige medidas para ser endereçado.
O presidente do BC disse que está claro que a política monetária tem funcionado no Brasil. “A política monetária vem surtindo seu efeito, vem fazendo a sua transmissão para a economia”, disse, citando questões como o nível do crescimento econômico e o ritmo das concessões de crédito.
Galípolo reconheceu que, dado o nível muito alto da Selic, alguns economistas poderiam esperar sinais mais “agudos” desse efeito na economia, mas, segundo ele, isso não invalida a avaliação de que a política monetária funciona. “Se você comparasse com outro país, era esperado que isso devia ter surtido um efeito ainda mais agudo, mas o efeito é de desaceleração, de crescimento menor, em especial nesses componentes mais cíclicos, quando a gente olha para o que o encerramento de 2025”, destacou.
Em relação ao ambiente global, Galípolo pontuou que o crescimento da dívida global é uma preocupação crescente desde o período da pandemia. A essa preocupação, somaram-se outras questões de incerteza para a economia global, com destaque para os investimentos em Inteligência Artificial (IA) e a preocupação se os investimentos nesses setores trarão retorno ou não, segundo o banqueiro central.