Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 19 de fevereiro de 2026
O grande rio Uruguai, que nasce na junção dos rios Canoas e Rio Pelotas, na divisa do RS com SC, não desce a serra para o mar, mas segue por um planalto em direção firme para o Oeste até encontrar o rio Peperi-Guaçu, na fronteira com a Argentina e SC. De repente, ele dobra para a esquerda e desce separando Brasil e Argentina até Barra do Quaraí, onde forma uma tríplice fronteira com Brasil, Uruguai e Argentina. Daí ele segue separando Uruguai e Argentina e desemboca, junto com o majestoso rio Paraná, no “Mar del Plata”, num delta que é uma simbiose de águas e se mistura com o oceano Atlântico, simultaneamente, próximo a Colônia do Sacramento e Buenos Aires.
Desde sua formação, o rio Uruguai é um rio volumoso, largo e quase todo navegável. Em todo o longo caminho que ele percorre entre o Brasil e a Argentina, há diversas cidades brasileiras às suas margens, muitos povoados e, do mesmo modo, na margem oposta (na Argentina), muitas cidades e povoados “olhando” uns para os outros. E, praticamente em todo o percurso, na sua margem, na beirada, próximo à água, há caminhos, matas, trilhas e esconderijos, pois desde sempre existe ali um comércio formiga de vai-e-vem, ora para um lado, ora para outro, sempre em função da relação moeda argentina versus moeda brasileira: um constante contrabando praticado por pessoas que são conhecidas como “chibeiros”.
Sustenta muita gente, não gera diretamente nenhuma riqueza em impostos, mas o dinheiro ganho pelos chibeiros compra alimentos, roupas, médicos etc. para suas famílias e acaba não sendo um mal tão sério para as “burras” do país, sustentando uma enorme quantidade de comerciantes ao longo do rio, isolados, nos vilarejos ou nas cidades.
Assim, no vilarejo chamado Porto Mauá, hoje emancipado, mas na década de 60 uma pequena vila, a estrada terminava. Porém, dobrando para a direita ou para a esquerda (norte ou sul), havia caminhos e trilhas que margeavam as águas por onde os chibeiros andavam.
A estradinha que margeava o rio Uruguai para o norte, a uns 3 ou 4 km da vila, chegava à casa de um forte comerciante, com uma bela e bem sortida “venda”, a uns 60/70 m da margem do rio, com um belo armazém que, certamente, era um entreposto chibeiro de entrega e recepção de mercadorias. E não eram só miudezas e armarinhos, mas fogões, geladeiras, rádios, máquinas de costura, eletrodomésticos etc.
O dono era um camarada especial. Eu o conheci. Era um bonachão, gente boa e hospitaleiro, e mais de uma vez ele nos deu pouso e dormia numa rede dentro do armazém. Os colonos da microrregião e os “chibeiros” lá se abasteciam.
Bem junto à água, a uns 70 metros da “venda”, existia uma enorme e frondosa árvore que estendia parte de seus galhos sobre o rio, sendo um deles muito grande e forte. Nesse ponto, a largura do rio é de uns 800 metros; a correnteza é fraca, quase um lago, denotando águas profundas e mansas. Um remanso.
Pois bem, exatamente debaixo desse galho, a água era quase parada e havia um baixio com uma enorme laje de pedra de uns 100 metros quadrados e não mais que 60/70 cm de profundidade, por onde passavam, ocasionalmente, cardumes de peixes ou 3 ou 4 juntos. E eram respeitáveis grumatãs, dourados, piavas e outros. Era muito lindo de ver. Uma cena natural da vida espontânea e incomum. Eu vi.
E era o local de pescaria do dono da loja (cujo nome não lembro). Mas era uma pescaria “muito especial”. Quando ele queria “pescar” e sua esposa estava disposta a preparar um enorme peixe, ele se postava sentado naquele galho e, de mosquetão “embalado”, esperava passar um ou mais peixes e, quando achava por bem, dava um tiro direto na laje, sem muita mira. O impacto da bala do mosquetão na pedra, por efeito físico, fazia estourar a bexiga de ar que os peixes têm no seu organismo, e um ou mais morriam e boiavam.
Pois bem, numa das visitas que lá fizemos, num fim de tarde, surpresos vimos o cliente com um enorme curativo acima do olho direito e um “afundado” na testa, naquele lado. Nossa! O que foi isso??
Pois veja que, numa dessas pescarias, o ferrolho do mosquetão saltou fora no momento do tiro, saiu pela culatra e arrancou quase metade da testa do coitado, que quase morreu até chegar ao hospital. Nossa mãe! Quase matou o homem. Ferimento feio.
Depois disso, acabei nunca mais viajando para aqueles lados e não sei, nem nunca soube, se ele adotou a linha e anzol ou se continuou “pescando” de mosquetão…
* Luiz Carlos Sanfelice – lcsanfelice@gmail.com