Sábado, 28 de Março de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 27 de março de 2026
Um dos temas “quentes” na área da saúde é o lipedema — pelo menos nas redes sociais, onde é comum encontrarmos vídeos de mulheres mostrando as pernas, geralmente com foco no tamanho ou na presença de celulite. O quadro é caracterizado pelo acúmulo simétrico (em ambos os lados) de tecido adiposo na parte inferior do corpo, principalmente nádegas, quadris e pernas, mas também pode afetar os membros superiores, poupando tronco, mãos e pés.
Acontece que, apesar de o lipedema ter sido descrito pela primeira vez em 1940, ainda são poucos os estudos que conseguem definir formas precisas de identificá-lo e tratá-lo. Por isso, há muitas mulheres sendo diagnosticadas sem ter a condição, muitas vezes por profissionais de saúde que também vendem protocolos sem base científica.
A cirurgiã vascular Inez Ohashi Torres Ayres, vice-secretária da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV), afirma que não há um protocolo consolidado para tratamento do lipedema. “Por enquanto, existem poucos trabalhos randomizados, e há vieses (nesses estudos), como número pequeno de participantes. Então não é possível concluir qual o melhor tratamento”, explica. “Provavelmente, teremos evidências melhores nos próximos anos.”
Como uma doença que não tem cura, todas as intervenções terapêuticas visam aliviar os sintomas e prevenir ou retardar sua progressão. No momento, não há nenhum medicamento aprovado para o tratamento do quadro.
Os médicos consultados pelo Estadão criticam protocolos que envolvem, por exemplo, o uso de radiofrequência, ultrassom, laserterapia, ledterapia, ozonioterapia e plataformas vibratórias. Esses são alguns exemplos de métodos que ainda não têm comprovação científica de que sejam capazes de melhorar os sintomas do lipedema.
Os tratamentos que, de fato, possuem respaldo não são tão “atraentes”. Afinal, não tem nada de milagroso na abordagem “conservadora” contra a doença, que consiste em alimentação balanceada aliada à prática regular de exercício físico, além de fisioterapia específica para o quadro. Essas são as intervenções que realmente trazem melhoras relacionadas ao aspecto do lipedema, aos sintomas (como as dores) e à qualidade de vida dos pacientes, dizem os médicos.
Para quem apresenta um grau mais grave da condição, a intervenção cirúrgica também pode ser indicada. “Mas vemos casos leves indo para procedimentos que podem ser perigosos“, alerta o endocrinologista Bruno Halpern, vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso).
A ideia de que o lipedema é uma gordura que não responde ao emagrecimento é um mito bastante difundido. “Não é que não responde, mas tem uma resposta um pouco pior em relação ao tecido adiposo não-lipedema”, explica o endocrinologista Roberto Zagury, membro do Departamento de Lipedema da Abeso.
Mesmo o lipedema não sendo sinônimo de obesidade, são condições que frequentemente coexistem e, em pessoas obesas, o lipedema tende a apresentar sintomas mais graves, já que há um aumento da concentração de gordura nos membros. Além disso, a prevalência de obesidade entre mulheres com lipedema também é significativamente maior: estimativas indicam que entre 60% e 80% das pacientes têm obesidade, contra cerca de 30% na população em geral.
Por isso, na maioria dos casos, o foco principal do tratamento é manejar o sobrepeso ou a obesidade, dizem os médicos.
“É importante ressaltar que ainda não foi estabelecido um regime terapêutico universalmente aplicável para o lipedema. Diversas intervenções demonstram potencial para alívio dos sintomas, mas a qualidade das evidências é variável. A heterogeneidade dos desenhos dos estudos, das populações de pacientes e dos critérios diagnósticos dificulta a comparação direta entre as diferentes modalidades de tratamento”, afirma o Consenso da Aliança Mundial de Lipedema, ratificado por 71 especialistas de 19 países e publicado em janeiro na revista Nature Communications.
A escolha do tratamento geralmente depende das características do paciente, incluindo a gravidade da doença, comorbidades associadas e preferências pessoais.
Dieta para lipedema?
Parte importante do tratamento do lipedema consiste em uma alimentação saudável, mas não há estudos suficientes comprovando se determinadas dietas são mais eficazes para o lipedema, dizem os médicos. “Qualquer dieta saudável que o paciente consiga seguir no médio e longo prazo vai ser muito bem-vinda”, afirma Zagury.
Além de evitar ultraprocessados e priorizar alimentos in natura — uma recomendação feita para a população em geral —, frequentemente é necessário montar uma dieta com o objetivo de alcançar um déficit calórico. Isso significa que a pessoa deve consumir menos calorias do que ela gasta, com a finalidade de emagrecer.
Exercício físico: precisa ser de baixo impacto?
O mesmo princípio da dieta vale para os exercícios físicos: qualquer atividade é benéfica, já que se exercitar reduz a inflamação do corpo. Independentemente de ter ou não lipedema, o ideal é associar treinos de força e resistência (como musculação, crossfit, funcional e pilates) com os aeróbicos (a exemplo de caminhada, corrida, natação, ciclismo e dança).
Para pacientes com dores e que se incomodam com hematomas frequentes, pode fazer sentido evitar exercícios de alto impacto, como a corrida, mas eles não são proibidos para quem tem lipedema.
Não é qualquer fisioterapia
A terapia descongestiva complexa também é citada pelos especialistas como importante para melhorar a circulação sanguínea e aliviar o volume, inchaço e peso das pernas, além de reduzir dores e hipersensibilidade.
Esse é um tipo específico de fisioterapia que engloba métodos compressores (que podem ser feitos com bandagens ou meias compressoras), drenagem linfática e exercícios conhecidos como miolinfocinéticos.