Segunda-feira, 22 de Junho de 2026

Home Rio Grande do Sul Livro da fotógrafa gaúcha Mirian Fichtner sobre as enchentes de 2024 tem lançamento nesta quinta-feira

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Há momentos em que a fotografia deixa de ser apenas testemunho para se tornar consciência. O trabalho de Mirian Fichtner sobre as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul pertence a essa linhagem rara de imagens que não apenas registram, mas instauram um campo ético incontornável diante do qual não há neutralidade possível.

Assim, com olhar e sensibilidade, Eder Chiodetto abre seu texto curatorial sobre o livro “Quando Começa a Chover o Coração Bate Mais Forte”, da gaúcha Mirian Fichtner, com lançamento às 19h desta quinta-feira (25) na Cinemateca Paulo Amorim da Casa de Cultura Mario Quintana, no Centro Histórico de Porto Alegre.

Mais de 212 páginas incluem 102 imagens, intercaladas a textos de Mirian, Chiodetto, Carlos Nobre e José Antonio Marengo, contextualizando a tragédia mediante dados estatísticos, estudos e pesquisas. Segundo eles, trata-se de uma importante ferramenta de conscientização sobre mudanças climáticas e urgência de sensibilizar e preparar as populações para eventos extremos.

Na ocasião será exibido documentário em curta-metragem sobre as cheias recordes do Estado, sob o mesmo título da publicação. Assim como no livro, o filme vai além de um registro histórico, mergulha no olhar dos atingidos, tecendo um inventário dos medos, traumas na vida dos que perderam tudo, especialmente as populações periféricas negras, mulheres, idosas e crianças.

Relato

Radicada no Rio de Janeiro, Mirian estava em Porto Alegre em maio de 2024 para visitar a família, quando foi surpreendida pela catástrofe ambiental. A jornalista e fotógrafa experiente, com carreira dedicada à comunicação e à arte, relembra:

“Chovia ininterruptamente há mais de uma semana. Nas periferias e na Região Metropolitana, os pássaros pararam de cantar. Os cães não latiam. Nada mais parecia ter vida nestes lugares, a não ser água. O silêncio sinistro e perturbador só era rompido pelo som da urgência dos helicópteros e ambulâncias. Eu me senti convocada. À revelia do luto pela morte recente de minha mãe, fotografar tornou-se imperativo”.

O Rio Grande do Sul estava submergindo e os gaúchos contabilizavam o incalculável de suas perdas. “Sem água e luz por dez dias, eu presenciava o o maior desastre da História do Estado, e também um dos maiores ocorridos no Brasil”, acrescenta.

E assim Mirian se dedicou a registar aquele momento tão único quanto assustador: “Tentei traduzir com imagens o que os números das estatísticas não mostram. A emoção supera as palavras e as imagens falavam por si. Minha sensação era a de estar num filme de terror, documentando o fim do mundo”.

Eder Chiodetto, em seu texto, diz que “ao percorrer estas páginas, somos atravessados por uma visualidade de alta densidade formal. A composição rigorosa, a leitura aguda da luz e o uso expressivo da cor, que tensionam até o limite entre o belo e o insuportável, inscrevem o ensaio de Mirian em uma tradição que dialoga com a pintura, sem jamais abdicar da urgência do real. Há, em suas imagens, um domínio estético que não suaviza a tragédia, mas a torna ainda mais incisiva’.

Sobre a autora

Mirian Fichtner é jornalista, fotógrafa e documentarista, radicada no Rio de Janeiro. Atuou nos principais jornais e revistas do Brasil. Possui vários livros publicados e exposições realizadas no Brasil e exterior. Recebeu mais de 18 prêmios nacionais e internacionais por seu trabalho fotográfico.

Em 2006, criou a Pluf Fotografias e Audiovisual para atender o mercado editorial, corporativo e audiovisual. Em 2021, estreou na produção, direção e fotografia de longas-metragens com o documentário “Cavalo de Santo”, premiado em mais de 15 festivais no Brasil e Exterior, incluindo quatro Kikitos no 49º Festival Internacional de Gramado. O documentário está em cartaz na plataforma GloboPlay.

No ano passado, produziu, dirigiu e fotografou o documentário “Quando Começa a Chover o Coração Bate Mais Forte”, sobre as enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, publicação que deu origem ao livro homônimo. No Carnaval de 2026 no Rio de Janeiro, o “Cavalo de Santo” serviu de referência ao enredo da Escola de Samba Portela.

(Marcello Campos)

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