Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 8 de janeiro de 2026
O ano de 2025 sepultou a descoberta farmacêutica guiada pela intuição. A inteligência artificial hoje dita o ritmo da biologia. Estudos publicados pela revista Nature Medicine demonstraram que modelos algorítmicos identificam alvos terapêuticos com maior precisão do que métodos tradicionais, comprimindo ciclos de desenvolvimento que antes ultrapassavam dez anos.
O impacto imediato aparece na contabilidade pública. Menos tempo de pesquisa significa menos internações prolongadas, menos judicialização e menor pressão estrutural sobre o financiamento da saúde.
O caso dos antibióticos contra superbactérias tornou esse movimento visível. Sistemas preditivos reduziram o tempo de descoberta de cerca de dez anos para menos de dois. Essa compressão retirou bilhões de dólares do custo global de pesquisa e produziu efeitos diretos sobre o erário. Cada ano eliminado do ciclo científico representa menos leitos ocupados, menos tratamentos ineficientes e menos vidas presas à fila hospitalar.
Essa arquitetura algorítmica também derrubou a principal barreira da medicina de precisão, o custo. Em 2026, o sequenciamento completo de um genoma humano caiu para valores inferiores a US$ 100, segundo análises consolidadas do setor. O desafio brasileiro já não está no equipamento físico.
Ele reside na curadoria dos dados. Sem infraestrutura pública de armazenamento, governança e treinamento local, o país corre o risco de trocar dependência farmacêutica por dominação digital, exportando dados genéticos e importando decisões.
A bioinformática nacional avançou quando o projeto Genomas Brasil ampliou, em 2025 e 2026, o sequenciamento de populações miscigenadas. Dados de indígenas, negros, europeus e asiáticos passaram a compor bases que refletem a realidade genética do país.
O ponto é técnico e político. Algoritmos treinados majoritariamente com genomas europeus erram no Brasil. A soberania biológica depende de sistemas que compreendam a miscigenação nacional, sob pena de produzir diagnósticos pouco precisos e políticas públicas cegas.
No Sistema Único de Saúde (SUS), os primeiros resultados começaram a aparecer. Projetos piloto de triagem preditiva conduzidos em parceria com o Hospital Israelita Albert Einstein, o InovaUSP e centros de pesquisa financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) utilizaram inteligência artificial para analisar dados do Departamento de Informática do SUS (DATASUS).
Os resultados indicaram redução próxima de 20% nas internações por doenças crônicas evitáveis. O foco deixou de ser o tratamento tardio e migrou para a prevenção orientada por dados.
A projeção fiscal decorrente desse movimento é direta. Especialistas em saúde pública estimam que a economia gerada pela aplicação sistemática de inteligência artificial na prevenção de doenças crônicas poderia cobrir, em apenas três anos, o déficit histórico de exames de alta complexidade no SUS.
A tecnologia, portanto, deixa de ser gasto para operar como instrumento de equilíbrio financeiro do Estado.
O fator humano organiza essa discussão. Não se trata de prolongar a vida de alguém restrito a um leito hospitalar. O objetivo é autonomia funcional. A imagem que importa é a do brasileiro de 85 anos que continua ativo, produtivo e integrado à vida comunitária. A inteligência artificial não serve para esticar a doença, mas para preservar a capacidade de viver com dignidade em uma sociedade que envelhece rapidamente.
O impasse ético reside no viés algorítmico. Modelos treinados fora do contexto brasileiro tendem a falhar justamente onde a política pública deveria proteger. Em um país miscigenado, isso significa risco real de exclusão sanitária. O erro algorítmico não aparece como escândalo. Ele se manifesta como ausência de eficácia, diagnóstico tardio e morte evitável.
Há também um choque direto com a Previdência. Se a bioinformática amplia a vida ativa em até dez anos, como indicam projeções conservadoras, o Estado precisa enfrentar dois desafios simultâneos. Combater o envelhecimento biológico com tecnologia e enfrentar o etarismo com política pública. A inteligência artificial pode prolongar a capacidade funcional. Cabe ao Estado impedir que a exclusão social transforme idade em critério de descarte.
Sem regulação e dados nacionais, a inteligência artificial amplia a vida apenas para quem pode pagar por ela.
A obsessão humana pela longevidade não é nova. Ela atravessa a Epopeia de Gilgamesh e o sonho alquímico da Pedra Filosofal. A virada de chave em 2026 está no método. O envelhecimento foi degradado de mistério teológico a erro de programação celular. A ciência passou a tratá-lo como acúmulo de danos passíveis de intervenção. O risco não está na ambição. Está na desigualdade do acesso.
Esse cenário exige uma regulação à altura. A longevidade mediada por algoritmos depende de uma Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) digital, capaz de auditar softwares como dispositivos médicos com o mesmo rigor aplicado às moléculas. Sem capacidade técnica para fiscalizar modelos, validar dados e exigir explicabilidade, o país corre o risco de terceirizar decisões vitais a sistemas opacos estrangeiros.
A soberania brasileira, em 2026, mede-se menos em barris de petróleo e mais em terabytes de genomas próprios. A inteligência artificial já redesenha o tempo humano. A escolha que resta é política. Ou o Estado coordena esse processo com regulação, acesso e dados nacionais, ou permitirá que o mercado transforme longevidade em privilégio biológico.
Em 2026, o tempo de vida não pode se tornar a nova medida da desigualdade social.
* Régis de Oliveira Júnior, jornalista e especialista em inteligência artificial