Domingo, 15 de Fevereiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 15 de fevereiro de 2026
Quatro meses após a última viagem à Ásia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva embarca para a Índia e a Coreia do Sul depois do carnaval para cumprir um roteiro que, segundo interlocutores do governo, integra um esforço para reduzir a dependência da China como principal mercado de destino de produtos brasileiros. A intenção é ampliar o leque de parceiros estratégicos do Brasil em um momento de reorganização geopolítica e disputas comerciais acirradas. Entre os temas que devem ser tratados pela comitiva brasileira estão a regulação da inteligência artificial e a exploração de minerais críticos.
O diagnóstico interno é que o eixo da economia mundial se desloca para a Ásia, e o Brasil não pode ficar à margem desse movimento. Integrantes do governo minimizam a possibilidade de o novo tour asiático criar algum tipo de incômodo na relação com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sob a justificativa de que o Brasil não deixará de buscar alternativas e oportunidades em função de pressões externas, asseguram interlocutores. Está previsto para março um encontro entre Lula e Trump, em Washington.
Minerais críticos
No caso da Índia, o interesse brasileiro se ancora no tamanho e no potencial do mercado. Com cerca de 1,4 bilhão de habitantes e uma classe média estimada em centenas de milhões de consumidores, o país é visto como uma oportunidade estratégica de longo prazo. Interlocutores do governo mencionam a possibilidade de entendimentos em áreas sensíveis, como minerais críticos, ainda que em formatos genéricos, além do aprofundamento do comércio e da cooperação.
A Índia também é percebida como um ator com autonomia própria, que mantém relações com a Rússia e não se submete automaticamente às pressões de Washington. A secretária de Ásia e Pacífico do Itamaraty, Susan Kleebank, afirma que a visita de Lula ao país, de 17 a 21, deverá consolidar acordos em áreas estratégicas e aprofundar a parceria bilateral.
O presidente viajará a convite do premier Narendra Modi e participará, nos dias 18 e 19, de evento sobre o impacto da inteligência artificial. Nos dias 20 e 21, cumprirá visita de Estado e agenda bilateral.
Segundo a diplomata, a relação entre os países está estruturada em cinco pilares definidos durante a visita de Modi ao Brasil, no ano passado: defesa e segurança; segurança alimentar; transição energética e mudança do clima; transformação digital e tecnologias emergentes; e parcerias industriais em setores estratégicos, como indústria aeronáutica, farmacêutica, petróleo e gás e minerais críticos.
— O diálogo com a Índia ganha relevância no contexto de instabilidade global e da defesa do multilateralismo. Os dois países têm posições coincidentes sobre a necessidade de reforma da governança global, inclusive do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Frederico Lamego, superintendente de Relações Internacionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), diz que a Índia representa uma oportunidade para o Brasil ampliar sua inserção econômica na Ásia. Paralelamente à visita, será realizado um fórum empresarial entre os dois países, que já conta com 250 inscritos.
— A visita presidencial cria um ambiente favorável para alavancar essa agenda, com a possibilidade de avançarmos inclusive na ampliação do acordo Mercosul-Índia — afirma Lamego.
‘Busca de alternativas’
Após concluir a agenda na Índia, Lula seguirá para a Coreia do Sul, onde realizará uma visita de Estado, a convite do presidente sul-coreano, Lee Jae-myung. A Coreia do Sul aparece no radar brasileiro por razões comerciais e tecnológicas. O país asiático é apontado como um dos grandes mercados ainda fechados para a carne brasileira, tema recorrente nas conversas bilaterais. Além disso, há interesse em setores de alta tecnologia, como semicondutores, e em outras áreas industriais consideradas estratégicas para o desenvolvimento e a reindustrialização do Brasil.
O coordenador do Núcleo de Estudos em Negócios Asiáticos da ESPM, Alexandre Uehara, avalia que a viagem ganha relevância após o tarifaço promovido pelo governo americano desde 2025.
— É uma viagem importante, pois é necessária a busca de alternativas e a ampliação de negócios com outros países. Pode-se valorizar a abertura de novos mercados para diminuir também a dependência do comércio com a China, para onde se dirigiram 28,7% das exportações e de onde vieram 25,3% das importações totais — diz. — As relações econômicas com os dois países têm muito potencial de crescimento.
A China é o principal destino das exportações brasileiras desde 2009, quando superou os EUA. No ano passado, o Brasil exportou US$ 100,02 bilhões (cerca de R$ 510 bilhões) para o país asiático, com superávit de US$ 29 bilhões (R$ 148 bilhões). As vendas foram puxadas sobretudo por produtos agroindustriais e extrativos: soja e oleaginosas lideraram a pauta, seguidas por minérios e combustíveis minerais, carnes e celulose. Com informações do portal O Globo.