Domingo, 25 de Janeiro de 2026

Home Ali Klemt Manual de bolso (didático e irônico) para entender regimes políticos – e o Brasil atual

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Vivemos tempos curiosos – e extremamente perigosos. Todo mundo chama todo mundo de fascista, nazista, comunista, ditador. Poucos sabem exatamente o que essas palavras significam. Então, antes de sair distribuindo rótulos como xingamentos morais, vale dar um passo atrás. Porque quando tudo é, nada é. Então vamos tentar colocar as coisas nas suas devidas caixinhas.

Aqui vai um manual de bolso. Simples. Direto. Assumidamente raso. O resumo do resumo do resumo do resumo, tá? Mas serve para orientar (ou até nos lembrar!) de conceitos básicos. Atenção! Não é suficiente para substituir estudo sério. E, por favor, use com senso crítico. Discordar ainda deveria ser permitido.

Fascismo
Esse é o que mais tem dado o que falar. O fascismo é um regime autoritário, antiliberal e antidemocrático, que concentra poder, rejeita a pluralidade e trata o dissenso como ameaça. Ele não admite oposição real, enfraquece instituições e costuma se justificar em nome de uma suposta “ordem maior”.

Elemento central: o fascismo não tolera divergência. A obediência vira virtude; a crítica, inimiga.

Leitura fundamental: O Fascismo Eterno, de Umberto Eco.

Nazismo
O nazismo foi uma forma específica de fascismo, com um componente adicional devastador: racismo biológico, antissemitismo e a ideia de superioridade racial.

E a pergunta que sempre aparece: era de direita ou de esquerda?

Resposta honesta: não cabe bem nessa régua simplista.
– Não era socialista no sentido clássico.
– Era estatizante e coletivista.
– Era anticapitalista liberal e anticomunista.

Conclusão: o nazismo se enquadra melhor como totalitarismo, não como rótulo ideológico comum. Como disse Umberto Eco, “jamais haverá outro nazismo”, referindo-se ao fato de que o nazismo específico da década de 1930 não se repetirá exatamente igual – o totalitarismo é que vai assumindo formas diferentes…

Leitura clássica: Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt.

Totalitarismo
Mas e o que é Totalitarismo então? É quando o Estado não reconhece limites (tipo, ele é TOTAL, entendeu o trocadilho?). Controla a fala, a imprensa, o pensamento e, quando possível, a vida privada. Não depende de ser de esquerda ou de direita. Depende da prática.

Como ensina Karl Popper, sistemas que acreditam deter a verdade final se sentem autorizados a calar todos os outros. Assustador.

Direita e esquerda (o básico que quase ninguém explica)
A divisão entre direita e esquerda nasce na Revolução Francesa e, desde então, muda conforme o tempo e o lugar. Ainda assim, há eixos centrais que ajudam a entender.

De forma geral:

Direita

Defesa da propriedade privada

Menor intervenção do Estado na economia

Valorização da liberdade individual

Ênfase em responsabilidade individual e limites ao poder estatal

Esquerda

Maior intervenção do Estado

Políticas de redistribuição de renda

Ênfase no coletivo

Ideia de que o Estado deve corrigir desigualdades sociais

Importante:
No Brasil e na Europa, essa divisão está muito ligada à economia e ao tamanho do Estado.
Nos Estados Unidos, o eixo é diferente: a direita americana pode ser liberal nos costumes e profundamente desconfiada do Estado, enquanto a esquerda pode ser identitária, mas ainda dentro de um liberalismo institucional forte.

Importar rótulos sem contexto é ignorância. Ou manipulação.

Capitalismo
Capitalismo é um sistema econômico, não um regime político, mas eu o incluí aqui porque acaba sendo sempre mencionado nessas conversas. Baseia-se em propriedade privada, livre iniciativa e mercado. Costuma conviver melhor com democracias liberais, mas pode existir sob autoritarismos (a China é exemplo).

Seu defeito clássico: desigualdade.
Sua virtude central: inovação, geração de riqueza e autonomia individual.

Comunismo
Na teoria: igualdade material, fim das classes, abolição da propriedade privada dos meios de produção.
Na prática histórica: Estado hipertrofiado, repressão política e supressão de liberdades.

O comunismo “puro” nunca existiu. O que existiu foram regimes comunistas, quase sempre autoritários ou totalitários.

Socialismo
Frequentemente aparece como estágio intermediário: mais Estado, mais redistribuição, mais controle. Pode existir em democracias. Pode, também, escorregar para autoritarismo (é o que, em geral, acontece).

O problema raramente é a promessa. É o método — e quem concentra o poder.

Ditadura
Ditadura não precisa fechar o Congresso nem rasgar a Constituição. Basta reinterpretá-la conforme a conveniência do poder.

Ditaduras modernas adoram decisões “excepcionais”, “temporárias” e “para proteger a democracia”. Spoiler: nunca protegem.

E o Brasil?
Depois desse passeio conceitual mínimo, bora refletir: onde estamos nós?

Quando o Estado passa a:
– restringir manifestações pacíficas
– criminalizar a intenção antes do ato
– tratar cidadãos reunidos como ameaça presumida
– relativizar direitos fundamentais

não estamos mais no campo da teoria.

A recente decisão que proíbe manifestações nas imediações da Papudinha, sob pena de prisão, é uma afronta direta ao artigo 5º, inciso XVI, da Constituição, que garante o direito de reunião pacífica, sem armas, independentemente de autorização.

Quando o Supremo Tribunal Federal passa a legislar, julgar, executar e definir o que pode ou não ser manifestado, o problema deixa de ser “excesso pontual”.

Passa a ser concentração de poder.

Então, o que é isso?
Se há eleições, mas não há liberdade plena.
Se há Constituição, mas ela é relativizada (para não dizer “seletivamente rasgada”).
Se há discurso democrático, mas práticas autoritárias.

O que sobra?

Uma ditadura travestida de democracia. Sem tanques. Sem fardas. Sem anúncio oficial. Ninguém é bobo, afinal (pensando bem, talvez nós sejamos).

Uma ditadura técnica, togada, sofisticada — e justamente por isso mais perigosa.

Este texto não pretende encerrar debates. É um “manual de bolso”, não um catecismo.

Porém, o recado está dado: ditaduras não começam com golpes. Começam quando direitos passam a “atrapalhar”, quando liberdade “incomoda”, quando manifestação vira crime preventivo.

A democracia não morre de uma vez. Ela vai sendo negociada. Pasito pasito…

E quando alguém percebe, já não pode mais sair à rua para reclamar…

Instagram: @ali.klemt

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