Quinta-feira, 05 de Março de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 4 de março de 2026
Quando mulheres realizavam grandes feitos, presumia-se, de forma equivocada, que “não eram mulheres que praticavam aquelas grandes ações, mas sim homens de saias!”, escreveu a filósofa Mary Astell, em 1705.
Até a rainha Elizabeth 1ª disse, em frase que se tornaria célebre, que um dia governaria o país como um rei, apesar de ter o corpo de uma “mulher frágil”, como se governar fosse um caminho exclusivamente masculino.
Embora esses exemplos sejam do passado, ainda persistem preconceitos de gênero sutis sobre o que significa ser uma pessoa bem-sucedida e poderosa.
De modo geral, nós ainda descrevemos características como a empatia como naturalmente femininas, e traços como dominância e assertividade, como masculinos. Mesmo quando demonstram o mesmo comportamento, os homens são vistos como assertivos, e as mulheres, como agressivas.
Uma característica frequentemente associada ao gênero feminino é a empatia. Supõe-se que as mulheres são empáticas por natureza, enquanto os homens que demonstram mais empatia costumam ser considerados fracos.
Mas por que isso ocorre? Será verdade que as mulheres são naturalmente mais empáticas do que os homens, ou somos socializadas para o sermos?
Estereótipos de gênero como esses têm consequências claras na forma como educamos os nossos filhos, na cultura do ambiente de trabalho e na liderança. Mas o que é menos visível é a precocidade com que esses preconceitos começam e o fato de os estereótipos reforçarem as nossas expectativas, impondo restrições significativas sobre a forma como esperamos que os outros se comportem.
Os hormônios por trás da empatia
A empatia envolve tanto a capacidade de compreender os pensamentos e sentimentos dos outros quanto a de responder de forma adequada. Também pode ser entendida em termos de empatia cognitiva — a habilidade de reconhecer emoções e adotar a perspectiva alheia — e de empatia afetiva ou emocional, quando reagimos emocionalmente aos pensamentos e sentimentos de alguém.
Os cientistas utilizam diversos métodos para medir empiricamente a empatia, incluindo questionários e tarefas experimentais. E há muito se observa que, em média, as mulheres tendem a obter pontuações consistentemente mais altas do que os homens.
Simon Baron-Cohen, psicólogo clínico da Universidade de Cambridge (Reino Unido), argumenta que isso ocorre porque o cérebro feminino é “predominantemente programado para a empatia”, o que tornaria as mulheres especialmente aptas para as funções de cuidado, enquanto o cérebro masculino seria “predominantemente programado para compreender e construir sistemas”.
Embora fatores sociais claramente influenciem a empatia, afirma Baron-Cohen, seu trabalho sugere que a exposição a hormônios no útero desempenha um papel no desenvolvimento social.
Um estudo conduzido por ele em 2006, com mais de 200 crianças de 6 a 9 anos, constatou que os níveis de testosterona no líquido amniótico durante a gestação — mais elevados em fetos do sexo masculino do que do sexo feminino — estão diretamente correlacionados ao desempenho das crianças em testes cognitivos de sistematização, definida como a capacidade de analisar regras ou padrões. De fato, a exposição à testosterona no útero se mostrou um preditor mais forte do desempenho nos testes do que o sexo da criança isoladamente.
Um estudo semelhante, publicado em 2007, também mostrou que a exposição fetal à testosterona estava inversamente correlacionada às pontuações em testes de empatia.
“O que está claro é que algo como a empatia ou a sistematização resulta de uma combinação complexa de fatores biológicos e sociais”, afirma Baron-Cohen, da Universidade de Cambridge.
A empatia está nos genes?
Muitos outros pesquisadores, como a neurocientista britânica Gina Rippon, consideram problemática essa teoria hormonal. “A ideia de que todas as mulheres são naturalmente mais empáticas faz parte da persistência do chamado ‘mito do cérebro feminino’”, diz Rippon. Também é preciso lembrar, acrescenta, que o cérebro de crianças pequenas é “altamente responsivo a influências externas”.
Em um estudo considerado paradigmático, que identificou diferenças de gênero em tarefas de empatia, as discrepâncias não foram grandes: as mulheres apresentaram maior empatia em 36 dos 57 países analisados, mas em 21 países as pontuações foram muito semelhantes, e os autores afirmaram que “não podem determinar causalidade”.
Embora as mulheres, em média, obtenham pontuações ligeiramente mais altas em estudos sobre empatia, a variação dentro de cada gênero é muito maior do que a variação entre eles. “Se você observar a distribuição das pontuações de empatia nas populações masculina e feminina, ela é enorme”, afirma Rippon.
Costuma-se dizer que as meninas e as mulheres são mais atentas às expressões faciais dos outros, uma habilidade considerada central para a empatia, mas os resultados são inconclusivos, e pesquisas recentes indicam que essa preferência não é inata.
Uma meta-análise publicada em 2025 examinou 31 estudos, reunindo 40 experimentos distintos, sobre como as meninas e os meninos de um mês de idade observavam os rostos dos outros, se choravam quando os outros choravam e quão atentos estavam às pessoas ao redor. Em todas essas medidas, independentemente do sexo, os bebês não apresentaram diferenças quanto à consciência social e à disposição para compreender as emoções alheias.
Um estudo genético de grande escala publicado em 2018, com mais de 46 mil participantes que responderam a um questionário e enviaram amostras de DNA, sugeriu que os genes desempenham algum papel no grau de empatia de uma pessoa. No entanto, nenhum desses genes está associado ao sexo do indivíduo.
Varun Warrier, professor assistente de pesquisa em neurodesenvolvimento na Universidade de Cambridge (Reino Unido) e autor do estudo, afirmou à época que “como apenas um décimo da variação no grau de empatia entre indivíduos se deve à genética, é igualmente importante compreender os fatores não genéticos”.
Isso indica que o ambiente em que alguém cresce e vive também exerce influência.
A socialização da empatia
As mulheres tendem a demonstrar mais traços de empatia, não por serem inatos, argumentam muitos cientistas, mas porque meninas e mulheres são socializadas, desde muito cedo, a agir de acordo com as próprias emoções e a priorizar as necessidades dos outros. As meninas também costumam receber brinquedos que enfatizam habilidades mais delicadas e de cuidado, enquanto os meninos são incentivados a brincar com ferramentas e carrinhos de brinquedo.
“As meninas pequenas são ensinadas a ser gentis e a não ser rudes ou agressivas, e isso gradualmente passa a fazer parte de quem elas são”, afirma a neurocientista britânica Gina Rippon.