Domingo, 25 de Janeiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 25 de janeiro de 2026
O mundo está consumindo volumes tão elevados de água doce, em meio aos efeitos das mudanças climáticas, que já ingressou em uma era de “falência hídrica”. O conceito descreve uma situação crônica em que regiões passam a utilizar mais água do que os sistemas naturais conseguem repor de forma confiável, sem capacidade de recuperação no médio e longo prazo.
Atualmente, cerca de 4 bilhões de pessoas — quase metade da população mundial — vivem sob escassez severa de água por pelo menos um mês ao ano, sem acesso suficiente para atender às necessidades básicas. Em diferentes partes do planeta, os impactos do déficit hídrico já são visíveis: reservatórios esvaziados, subsidência do solo, quebras de safra, racionamento, além do aumento na ocorrência de incêndios florestais e tempestades de areia e poeira.
Os sinais desse colapso aparecem em diversas regiões. Em Teerã, secas prolongadas e o uso insustentável da água esgotaram os reservatórios que abastecem a capital iraniana, alimentando tensões políticas. Nos Estados Unidos, a demanda já supera a oferta do Rio Colorado, fonte essencial de água potável e irrigação para sete estados.
A falência hídrica vai além de uma metáfora. Trata-se de uma condição em que aquíferos, zonas úmidas e outros sistemas naturais responsáveis por armazenar e filtrar a água sofrem danos difíceis ou impossíveis de reverter. Um estudo conduzido pelo Instituto da Universidade das Nações Unidas para a Água, o Meio Ambiente e a Saúde aponta que muitos sistemas hídricos já não conseguem retornar às suas condições históricas, caracterizando um estado permanente de colapso.
Na prática, o processo segue etapas semelhantes às de uma falência financeira. Inicialmente, recorre-se a soluções emergenciais: extração intensiva de água subterrânea em períodos de seca, perfuração de poços mais profundos, transferência de água entre bacias e drenagem de pântanos para expansão urbana e agrícola. Com o tempo, os custos ocultos surgem. Lagos encolhem, rios se tornam sazonais, poços deixam de ser viáveis e a intrusão de água salgada compromete aquíferos.
Um dos efeitos mais visíveis é a subsidência do solo. O bombeamento excessivo de águas subterrâneas pode provocar o colapso da estrutura do subsolo, que funciona como uma esponja. Na Cidade do México, o solo afunda cerca de 25 centímetros por ano. Uma vez compactados, os poros subterrâneos não podem ser restaurados.
O relatório Global Water Bankruptcy, publicado em janeiro de 2026, mostra que a extração de água subterrânea já causou afundamento significativo do solo em mais de 6 milhões de quilômetros quadrados no mundo, incluindo áreas urbanas onde vivem cerca de 2 bilhões de pessoas. Cidades como Jacarta, Bangkok e Ho Chi Minh estão entre os casos mais emblemáticos.
A agricultura, responsável por cerca de 70% do consumo global de água doce, é particularmente afetada. Regiões sob estresse hídrico enfrentam aumento de custos, perda de empregos no campo e riscos à segurança alimentar. Cerca de 3 bilhões de pessoas e mais da metade da produção mundial de alimentos estão concentradas em áreas onde a capacidade de armazenamento de água já é instável.
As secas também se intensificam em duração e frequência. Entre 2022 e 2023, mais de 1,8 bilhão de pessoas enfrentaram episódios de seca em diferentes momentos. As consequências incluem aumento nos preços dos alimentos, redução da geração hidrelétrica, riscos à saúde, desemprego, migração forçada, instabilidade social e conflitos.
Apesar desse cenário, países continuam ampliando a retirada de água para sustentar o crescimento urbano, agrícola, industrial e, mais recentemente, a expansão de centros de processamento de dados voltados à inteligência artificial. Embora nem todas as bacias estejam em falência hídrica, a interconexão entre regiões por meio do comércio, do clima e da migração faz com que o colapso em uma área aumente a pressão sobre outras, elevando o risco de tensões locais e internacionais.