Domingo, 07 de Junho de 2026

Home Política Na mira dos Estados Unidos, o Pix está no centro da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro

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Na mira dos Estados Unidos, o Pix está no centro da disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que resgatou o discurso em defesa da soberania nacional, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que credita ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, a criação da ferramenta. O uso eleitoral do tema remonta à campanha de 2022 e reflete o espaço que o sistema de pagamentos passou a ocupar na vida dos brasileiros, alterando, por vezes, a percepção sobre o governo.

O assunto voltou a ganhar força na última semana, após o anúncio da conclusão de uma investigação do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR). O órgão recomendou a aplicação de taxas de 25% sobre os produtos brasileiros, sob o argumento de que o país utiliza políticas desleais para favorecer seu método próprio de transações em detrimento de empresas de serviços de pagamento eletrônico americanas.

Em reação, o Palácio do Planalto recuperou o lema “O Pix é nosso”, lançado no ano passado após o início da apuração dos Estados Unidos e em meio aos desdobramentos do primeiro tarifaço. A estratégia também serviu para alfinetar Flávio Bolsonaro, acusado por governistas como o culpado pela reação americana, após um encontro com Donald Trump na semana que antecedeu a crise. O senador negou ter envolvimento com a medida e apostou na criação de um slogan próprio: “O Pix é do Brasil e do Bolsonaro”.

Capitalização
Em 2022, quando disputou a reeleição, Bolsonaro se colocou como o responsável pela invenção do mecanismo em uma propaganda eleitoral gratuita exibida na TV no final de agosto, cerca de um mês antes do segundo turno. Na peça publicitária, ele diz que sua gestão criou o sistema de pagamentos em 2020 e relembra “a dificuldade para fazer uma transferência de recursos” no passado. “É o nosso governo inovando”, acrescentou.

Para Maurício Moura, fundador do instituto de pesquisa Ideia, apesar da tentativa de capitalizar o assunto, a opinião pública não identifica quem esteve por trás da criação da ferramenta, mas a reconhece como valiosa.

— Não há uma identificação da população sobre um padrinho do Pix. Ele já foi incorporado como um serviço público que gerou um efeito muito importante ao aumentar a bancarização, no sentido de que é muito mais fácil utilizá-lo do que lidar com dinheiro em espécie. Isso facilitou, principalmente, as transações de empreendedores e trabalhadores informais — afirma.

O Banco Central estima que o método de pagamento é usado por mais de 170 milhões de pessoas, número que corresponde a cerca de 80% da população e, só em janeiro deste ano, foi responsável por movimentar R$ 7 bilhões. Já uma pesquisa Radar Febraban feita em setembro de 2024 pelo Ipespe identificou que a ferramenta é aprovada por 95% dos brasileiros e tem a melhor nota entre todos os meios de pagamento testados — à frente, em ordem, dos cartões de débito e crédito, das transferências TED e do cheque bancário.

Em função de sua popularidade, qualquer ruído sobre a ferramenta representa para os eleitores uma “possível ameaça a algo que organiza a vida prática deles”, diz Felipe Nunes, CEO da Quaest. A percepção foi testada no início do ano passado, diante da repercussão de um vídeo publicado pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). O parlamentar insinuava que o governo ia taxar as transações a partir de uma instrução normativa publicada pela Receita Federal sobre a necessidade de maior monitoramento das transferências.

O discurso repercutiu nas redes sociais, replicado por bolsonaristas, e influenciou na perda de popularidade de Lula. O levantamento feito pela Quaest logo após o episódio mostrou que, pela primeira vez no terceiro mandato do petista, o percentual de reprovação do governo (49%) superou numericamente a aprovação (47%), tendência que não foi revertida até hoje. Antes, ainda durante a campanha de 2022, Lula afirmou que era alvo de “fake news” criadas pelos adversários segundo os quais, caso eleito, ele daria fim ao método de pagamento.

— Na crise do Pix do ano passado, o governo sofreu porque ficou no lugar de quem precisava se explicar. Mesmo quando a ideia de taxação não correspondia ao que estava sendo feito, a percepção de risco já tinha se espalhado. E, em política, percepção de ameaça ao bolso costuma andar muito mais rápido do que explicação técnica. Depois, quando Lula consegue deslocar o debate para a defesa da soberania, a chave muda — afirma Nunes. Com informações do portal O Globo.

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