Domingo, 15 de Março de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 15 de março de 2026
Imagina se a Comissão de Agricultura fosse presidida por alguém que nunca pisou em uma lavoura. Se a Comissão de Saúde fosse liderada por alguém que rejeita a própria existência da biologia. Ou se a Comissão de Direitos da Criança fosse presidida por alguém que nunca reconheceu a infância como uma fase específica da vida.
Soaria estranho, certo?
Pois bem. No Brasil de 2026, aparentemente, não há problema algum em algo ainda mais curioso: a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados ser presidida por alguém que nunca viveu a experiência biológica de ser mulher. Sim, a deputada federal Erika Hilton, a trans mais famosa do país, assumiu o cargo essa semana.
E antes que tentem reduzir a discussão a caricaturas previsíveis…não, isso não é um ataque pessoal. É uma pergunta institucional mesmo. Uma pergunta que, aliás, está sendo feita por muitas mulheres de diferentes espectros políticos (inclusive mulheres de esquerda, viu?) que olham para a situação e sentem o desconforto inescapável: como a pauta feminina acabou sendo conduzida por alguém que jamais viveu as condições fisiológicas que moldam a vida das mulheres?
Antes de entrar no mérito do porquê isso é absolutamente indignante, vale explicar como isso aconteceu.
Na Câmara dos Deputados, as comissões permanentes são distribuídas entre os partidos conforme o tamanho de suas bancadas. Cada partido, quando recebe o comando de uma comissão, indica um nome, e os próprios membros daquele colegiado realizam a eleição. Neste ano, o acordo político entre as lideranças parlamentares definiu que a Comissão da Mulher ficaria com o PSOL. O partido indicou a deputada Erika Hilton, e a votação terminou com 11 votos favoráveis e 10 votos em branco. Em outras palavras: não houve consenso nem dentro da própria Comissão da Mulher.
Veja, são 21 parlamentares da comissão. Como havia apenas uma chapa, quem discordava não tinha alternativa real além de votar em branco. E foi exatamente isso que aconteceu. De 21 parlamentares presentes, quase metade preferiu registrar protesto no painel. Embora o voto seja secreto (POR QUE SECRETO, GENTE?), ainda assim, é possível identificar quem estava presente e participou da votação. Deputadas como Chris Tonietto (PL-RJ), Julia Zanatta (PL-SC), Rosana Valle (PL-SP) e Clarissa Tércio (PP-PE) criticaram publicamente a eleição. Logo, supõe-se que essas são as dissonantes e votaram em branco.
Daí você me pergunta: mas por que raios o comando acabou nas mãos do partido mais ideologicamente alinhado à agenda de identidade de gênero no Congresso? Estrategie, baby. O PSOL tem uma presença parlamentar pequena, mas costuma disputar comissões com forte valor simbólico. E poucas comissões têm impacto político e cultural tão grande quanto a Comissão da Mulher, justamente porque ali passam debates sobre violência doméstica, saúde feminina, maternidade, direitos reprodutivos e políticas públicas voltadas especificamente ao sexo feminino. Controlar esse espaço significa também controlar a narrativa política sobre o que significa ser mulher no Brasil contemporâneo.
E é justamente aí que o debate deixa de ser burocrático. Afinal, ser mulher não é apenas uma identidade discursiva. É também uma realidade biológica ÓBVIA. Mulheres possuem, em regra, cromossomos XX. Isso não é só um detalhe acadêmico. Essa diferença genética desencadeia uma cascata de processos fisiológicos: produção hormonal específica, ciclo menstrual, fertilidade, gestação, parto, puerpério e padrões distintos de vulnerabilidade física e mental.
Tais diferenças, como toda mulher sabe – ou melhor, como SÓ a mulher sabe – moldam a vida feminina de maneiras muito concretas.
Pesquisas mostram, por exemplo, que mulheres apresentam taxas significativamente maiores de transtorno depressivo maior do que homens — quase o dobro! A diferença aparece na puberdade e se mantém ao longo da vida adulta. Outro exemplo evidente é o ciclo menstrual. Uma meta-análise internacional estimou que quase metade das mulheres em idade reprodutiva apresenta sintomas de síndrome pré-menstrual. Em alguns casos, a condição evolui para o transtorno disfórico pré-menstrual, que envolve alterações intensas de humor, ansiedade e sofrimento psicológico.
E existe ainda a experiência corporal da maternidade. Gestar, parir e enfrentar o puerpério não são metáforas culturais. São processos fisiológicos extremos. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 13% das mulheres desenvolvem transtornos mentais após o parto, principalmente depressão pós-parto. Estamos falando de alterações hormonais profundas, privação de sono, vulnerabilidade emocional e uma reorganização completa do corpo feminino.
Vou ainda mais longe: existe, também, a experiência de não gestar. De ter que viver o dilema de escolher ou não ter filhos. De lidar com o julgamento velado da sociedade. Ou, pior: tentar engravidar e não conseguir. Tais circunstâncias abalam o emocional e abrem debates essenciais à vida feminina e ao atual lugar da mulher no mundo.
Estamos falando de algo que simplesmente não pode ser simulado por identidade, linguagem ou discurso. Em síntese: Erika Hilton não tem lugar de fala – para usar um jargão que foi tão, mas tão difundido pela esquerda.
O que está em jogo não é a presença de uma pessoa trans na política — isso é parte da democracia e, “de boa”, eu acho isso sensacional (mesmo achando a Erika, especificamente, uma pessoa mal educada, histérica, hipócrita e raivosa, e isso independe de sexo, cor, tamanho ou seja lá mais o que que usam para nos dividir).
O que está em jogo é outra coisa: a possibilidade de a própria experiência feminina ser dissolvida em uma abstração ideológica.
A filósofa Hannah Arendt escreveu, ao analisar os regimes totalitários do século XX, que um dos sinais mais perigosos de uma sociedade ocorre quando a realidade concreta passa a ser substituída por construções ideológicas que exigem aceitação mesmo quando contradizem a experiência vivida. Quando isso acontece, dizia Arendt, quem insiste nos fatos passa a ser tratado como problema.
Algo parecido começa a acontecer quando mulheres dizem algo extremamente simples: existem experiências que pertencem exclusivamente ao corpo feminino.
Como se não bastasse, o episódio ganhou contornos ainda mais irônicos. Em vídeos que circularam amplamente nas redes sociais, Erika Hilton reagiu às críticas de mulheres chamando-as de “imbecis” — em um trocadilho com “cis” — e dizendo que poderiam “latir como cachorras”. Oi? A cena é reveladora, não é não? Porque, no exato momento em que muitas mulheres tentavam expressar uma preocupação legítima sobre representação feminina, foram tratadas com deboche. Taí a presidente da comissão da mulher sendo super democrática (sim, contém ironia).
Durante décadas, o discurso feminista insistiu que era preciso ouvir as vivências das mulheres. E eu concordo! Agora, quando mulheres falam sobre a própria realidade biológica, são mandadas latir. É difícil imaginar um símbolo mais claro da inversão que estamos vivendo.
Resta saber, portanto: se até a Comissão da Mulher já pode prescindir da própria experiência de ser mulher, o que exatamente ainda significa ser mulher no debate público brasileiro?
Inclusão que exige o desaparecimento da mulher não é inclusão: é substituição. É apagamento da nossa relevância social. E a última coisa que uma mulher deveria aceitar, em nome da modernidade, é desaparecer politicamente da própria pauta.
Que fique muito claro: a mulher não é uma identidade emprestada. A mulher é uma realidade — e realidade não se apaga por decreto ideológico.
Ali Kemt
@ali.klemt