Domingo, 18 de Janeiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 17 de janeiro de 2026
A Noruega reagiu com incredulidade à notícia de que a laureada com o Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, entregou sua medalha a Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, que há anos manifesta o desejo de receber o prêmio.
“Isso é completamente inédito”, disse Janne Haaland Matlary, professora da Universidade de Oslo e ex-política, à emissora pública NRK. “É uma total falta de respeito com o prêmio, da parte dela”, afirmou, classificando o gesto como “sem sentido” e “patético”.
Trump, que afirma merecer o Nobel da Paz por ter “resolvido inúmeras guerras” durante seu segundo mandato, recebeu a medalha das mãos da líder da oposição venezuelana em um encontro na Casa Branca, na quinta-feira (15). Ele já havia expressado insatisfação com a decisão do Comitê Norueguês do Nobel, que concedeu o prêmio a Machado.
O comitê afirmou na semana passada que o prêmio não pode ser compartilhado nem transferido. A instituição não respondeu a ligações nem a mensagens enviadas na sexta-feira pedindo comentários.
O episódio representa mais um golpe na reputação do Prêmio Nobel da Paz e evidencia como o prêmio se tornou politizado. Para alguns, a escolha de Machado foi uma forma de evitar desagradar Trump, após sua campanha pública e agressiva para conquistar a honraria.
O gesto contrasta fortemente com o ocorrido em 2022, quando o jornalista russo Dmitry Muratov leiloou sua medalha do Nobel da Paz de 2021 para arrecadar fundos em prol de refugiados ucranianos da guerra de Vladimir Putin — ato filantrópico que não gerou críticas significativas na Noruega.
As decisões do Nobel frequentemente geram controvérsias. O prêmio concedido a Barack Obama em 2009, poucos meses após o início de seu primeiro mandato, precedeu um aumento do contingente militar dos EUA no Afeganistão. Já Aung San Suu Kyi, vencedora de 1991 por sua resistência à junta militar de Mianmar, foi mais tarde criticada internacionalmente por sua inação diante do massacre dos rohingyas.
Mais recentemente, o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, premiado em 2019, se envolveu em uma guerra civil na região de Tigray apenas um ano depois, conflito que deixou centenas de milhares de mortos, segundo o Tigray War Project da Universidade de Ghent.
Mais críticas
Na Noruega, políticos atuais também criticaram duramente o presente dado a Trump. “O fato de Trump aceitar a medalha diz muito sobre ele como pessoa: um fanfarrão clássico que gosta de se exibir com o trabalho e os prêmios dos outros”, afirmou Trygve Slagsvold Vedum, ex-ministro das Finanças e líder do Partido do Centro, à NRK.
Já Kirsti Bergsto, líder do Partido da Esquerda Socialista, disse que o gesto é “acima de tudo absurdo e sem sentido”.
O Prêmio Nobel da Paz é considerado o mais prestigioso do mundo em esforços diplomáticos. É um dos cinco prêmios Nobel criados pelo testamento de Alfred Nobel, o inventor da dinamite, falecido em 1896.
Embora o Comitê Norueguês do Nobel atue com independência e o governo não interfira na escolha, há um componente político, já que os cinco membros são nomeados pelo Parlamento. O Legislativo, inclusive, alterou diversas vezes os critérios de elegibilidade, tentando afastar o prêmio das disputas partidárias.
A relação entre Noruega e Estados Unidos já vinha tensa em 2026. A decisão do governo norueguês de vender ações da Caterpillar Inc. do fundo soberano de US$ 2,1 trilhões irritou apoiadores de Trump e levou à suspensão do conselho de ética que recomenda exclusões de investimentos ao fundo.
Os dois países seguem em negociações comerciais, com a Noruega tentando reduzir uma tarifa de 15% imposta pelos EUA como parte de seu programa global de tarifas.
De fora
Enquanto isso, na Venezuela, Machado está excluída do processo de transição política, iniciado após a derrubada de Nicolás Maduro pelas forças americanas em 3 de janeiro, embora seu regime tenha sido mantido. A líder disse ter entregue a medalha a Trump como “reconhecimento de seu compromisso único com nossa liberdade”.
“Isso é incrivelmente constrangedor e prejudicial para um dos prêmios mais importantes e reconhecidos do mundo”, escreveu Raymond Johansen, ex-prefeito de Oslo e membro do Partido Trabalhista, em publicação no Facebook. “O prêmio está tão politizado e vulnerável que pode facilmente dar origem a um ‘antiprêmio da paz’.” Com informações do Valor Econômico e InfoMoney.