Segunda-feira, 18 de Maio de 2026

Home Colunistas O brilho antes da multidão

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Você ama um artista por que o mundo disse que ele é grande ou, então, por que ele despertou algo dentro de você?

Recentemente, assisti a um vídeo de um artista de rua chamado Selam Araya no Instagram, um alemão de origem africana conhecido por viralizar nas redes cantando em espaços públicos. Curiosamente, em alguns vídeos ele aparece usando inclusive a camisa do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Detalhe que chamou minha atenção de imediato como bom gaúcho de alma tricolor.

Mas não foi isso que realmente me marcou. O que me atingiu foi uma cena aparentemente simples: uma jovem sentada no chão, visivelmente emocionada, quase chorando enquanto ele cantava a pouco mais de um metro dela.

Ao redor, celulares gravando, pessoas acompanhando, uma roda comum em algum canto da cidade…

Nada de estádio lotado. Nada de luzes gigantes. Nada de produção milionária. Nada de seguranças afastando fãs…

E foi justamente ali que enxerguei algo que talvez muita gente não tenha percebido. Qual é, afinal, a verdadeira diferença entre um superstar e um artista desconhecido quando alguém é tocado de verdade pela música e pelo talento?

As luzes? O palco? Os milhões? Os contratos? Os seguranças? Porque, olhando aquela cena, a sensação era exatamente a mesma de um grande show, só que com um pequeno toque de pureza…

Recentemente, tive a oportunidade de entrevistar online, diretamente de Minas Gerais, a cantora Anna Maz, vencedora do programa Canta Comigo em 2022.

Dona de uma mistura muito própria entre rock, metal sinfônico e interpretação teatral, ela me provocou uma sensação difícil de explicar racionalmente. Em determinado momento da entrevista, já usando fones de ouvido durante a transmissão, foi como se a voz de um anjo estivesse entrando diretamente na minha cabeça.

Cheguei a embargar a voz ao vivo. Ter passado por isso me faz entender exatamente o que aquela jovem provavelmente estava sentindo naquela calçada. Porque, naquele instante, ela estava diante de alguém que tocava diretamente o coração dela. E existe uma beleza quase poética nisso…

Hoje em dia, vivemos tão condicionados a validar talentos pelo tamanho da fama, pelo número de seguidores ou pela quantidade de dinheiro envolvida, que esquecemos uma coisa simples: antes de serem gigantes, todos os grandes artistas já foram desconhecidos.

Então, imagine comigo… Imagine poder viajar no tempo e entrar em um pequeno bar esfumaçado nos anos 50 e dar de cara com o jovem Elvis Presley antes do mundo descobrir quem ele era.

Ou encontrar Kurt Cobain tocando para meia dúzia de pessoas distraídas em algum canto de Seattle. Prince sentado em um palco pequeno improvisando acordes enquanto poucos prestam atenção. Sting cantando em um pub qualquer antes do The Police explodir no planeta.

Agora imagine você ali. Sem imprensa. Sem fama. Sem histeria coletiva. Apenas você e aquele artista que ainda não pertence ao mundo. Você senta, ouve e, de repente, percebe algo diferente. Algo raro. Aquela estranha sensação de estar diante de alguém destinado a tocar milhões de pessoas no futuro.

Então, você canta junto. Se emociona. Talvez até chore. Não porque ele é famoso, mas porque você percebeu quem ele era antes do resto do mundo…

Talvez seja exatamente isso que torna aquela cena do vídeo tão poderosa. Porque a jovem não está sendo influenciada ou pensando em contratos, números ou algoritmos. Ela não estava reverenciando a fama. Estava reconhecendo o talento.

Ela, simplesmente, está vivendo um momento verdadeiro entre fã e artista. E isso hoje se tornou raro. A internet mudou completamente o mundo artístico.

Antes, era preciso passar pelas grandes gravadoras, pelos empresários, pelos filtros da televisão e da indústria cultural. Hoje, os talentos estão espalhados pelas ruas, metrôs, calçadas e esquinas da vida.

Talvez, muitos nunca cheguem aos grandes palcos. Talvez nunca apareçam nas grandes emissoras ou tenham milhões na conta. Mas conseguem algo igualmente poderoso: alcançar pessoas de verdade…

Porque, antes da indústria, antes dos contratos, antes da fama, antes do marketing transformar emoção em produto, existia apenas alguém cantando, e alguém sentindo.

A emoção não mede faturamento. Não mede seguidores. Não mede contratos. E, talvez, seja exatamente por isso que aquela menina chorando naquela roda simples tenha me emocionado tanto. Porque, por alguns minutos, ela não estava em uma calçada. Ela estava na primeira fila do coração dela mesma.

Vivendo o privilégio de encontrar um artista antes que o mundo inteiro diga que ele é importante. Porque existe algo mágico em reconhecer brilho antes da multidão, até mesmo nas esquinas da vida.

Talvez daqui alguns anos, Selam Araya esteja em grandes palcos. Talvez não. Mas, naquele momento, para aquela jovem, isso não fazia a menor diferença.

Porque enquanto o mundo ainda tentava decidir quem ele era, e as pessoas a sua volta filmavam, ela simplesmente escolheu sentir…

* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho

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