Quarta-feira, 11 de Março de 2026

Home Amilcar Macedo O capote de Gógol e as filas do INSS

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Há quase dois séculos, o escritor russo Nikolai Gógol publicou um conto que atravessou gerações e continua surpreendentemente atual. Em O Capote, conhecemos Akáki Akákievitch, um funcionário público bastante modesto de São Petersburgo que passa a vida copiando documentos. Não decide nada, não opina sobre nada. Vive discretamente, quase invisível dentro da máquina administrativa do Estado.

Sua grande preocupação é simples: sobreviver ao inverno russo. Para isso, precisa de um novo capote. O antigo está gasto demais para enfrentar o frio cortante da cidade.

Akáki economiza por meses, abre mão de pequenas despesas, suporta privações silenciosas. Quando finalmente consegue comprar o capote, experimenta algo raro em sua vida: reconhecimento. Os colegas o cumprimentam, celebram a peça nova. Por alguns instantes, aquele homem apagado parece existir para os outros.

Mas a alegria dura pouco. O capote é roubado numa noite fria. Desesperado, Akáki tenta recorrer à polícia e a um alto funcionário da administração. Em vez de ajuda, encontra indiferença, tratamento indigno e formalidades vazias. Pouco depois, adoece e morre.

Gógol escreveu essa história em 1842. Mesmo assim, ela parece falar diretamente a muitas experiências do mundo contemporâneo. Não porque os contextos sejam iguais, mas porque certas engrenagens da burocracia continuam funcionando de forma semelhante: enormes, complexas e, às vezes, incapazes de enxergar a pessoa concreta que está diante delas.

Nos últimos dias, episódios envolvendo falhas nos sistemas do INSS acabaram afetando milhares de aposentados e pensionistas. Benefícios indisponíveis, impossibilidade de acesso a serviços ou crédito consignado, filas que começaram ainda na madrugada diante de agências. Para quem observa de longe, o problema pode parecer apenas técnico. Sistemas digitais falham em qualquer lugar do mundo.

Mas para quem depende do benefício ou de um empréstimo para comprar remédios, pagar contas ou equilibrar o orçamento doméstico, o problema ganha outra dimensão. O drama não é apenas tecnológico. É humano. Quando um sistema falha, espera-se que a instituição encontre rapidamente caminhos alternativos. Servidores podem assumir tarefas temporariamente, procedimentos emergenciais podem ser criados, soluções provisórias podem ser adotadas. Afinal, o objetivo final da administração pública não é proteger máquinas ou protocolos, mas servir pessoas.

Quando isso não acontece, o que surge é algo muito próximo do cenário descrito por Gógol: cidadãos diante de portas fechadas, orientações vagas, filas intermináveis e uma sensação desconfortável de invisibilidade. Não se trata de comparar realidades distintas nem de transformar problemas administrativos em tragédias literárias. Mas há uma pergunta incômoda que atravessa os séculos desde o conto de Gógol até hoje: para quem, afinal, funcionam as instituições?

O Estado moderno nasceu para organizar a vida coletiva e proteger os cidadãos. No entanto, quanto mais complexas se tornam suas estruturas, maior o risco de que procedimentos e sistemas passem a ocupar o lugar das pessoas que deveriam ser atendidas por eles.

No conto russo, após a morte de Akáki, espalha-se pela cidade o rumor de que um fantasma vaga pelas ruas de São Petersburgo arrancando capotes de funcionários importantes. É uma espécie de justiça tardia e simbólica, quase uma ironia literária.

Talvez o fantasma de Akáki não seja apenas uma figura fantástica. Talvez represente algo mais simples: o lembrete persistente de que nenhuma instituição pode esquecer que, do outro lado do balcão, existe sempre alguém de carne e osso tentando apenas resolver um problema real da vida.

* Amílcar Fagundes Freitas Macedo – gabinete-amilcar@tjmrs.jus.br

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