Sábado, 10 de Janeiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 10 de janeiro de 2026
Nunca gostei muito das pessoas que começam a frase com “no meu tempo…”, e se segue um peroração dos méritos supostos, que antes existiam, mas que agora não existem mais. É um tanto cabotino achar que no “meu” tempo as coisas eram melhores – uma forma de autoelogio.
Mas às vezes me vejo diante da dúvida: afinal, que tempo era melhor, antes ou agora, o passado e o presente? O presente leva uma desvantagem considerável enorme: a gente sente a dor, o sofrimento, a decepção agora com muito mais intensidade. Outras mágoas e frustrações ficaram para trás, se perderam no esquecimento ou na nossa tendência de minimizar os danos.
Mas não posso deixar de pensar que antes a política se fazia de forma muito mais virtuosa, civilizada, elegante até, comparada com as dos nossos dias. Foi Lula e o PT que inauguraram a narrativa do “nós contra eles”, como se fosse o bem contra o mal, no qual todos os radicais nadam de braçada – nós representamos a ética na política, nós nos ocupamos dos mais desvalidos, nós vamos eliminar a pobreza e a miséria.
E se mais não fizemos, diziam, porque eles, as elites, os ricos, onde o mal está incrustado, boicotam e não permitem.
Com o advento de Bolsonaro o embate político se deteriorou de vez, e o que restava de civilidade nos tratos comuns do parlamento, nas argumentações do debate público, foram substituídos por uma atoarda infernal de ataques histéricos, de insultos, guerra verbal onde ninguém se entende e supostamente que vence é quem berra mais alto.
As sessões do Congresso, das comissões temáticas, das CPIs se constituem rotineiramente em uma sequência de interrupções, impropérios, grosserias, capazes de fazer corar a freguesia dos lupanares. O costume é o berro, o desrespeito, a ofensa, até que o presidente dos trabalhos corte o som, antes que se engalfinhem em luta corporal.
Nos idos de 1980, uma sessão do Parlamento, uma reunião de Comissão que desandasse para a gritaria e a balbúrdia, não era evento comum. A confusão, quando eclodia, era rapidamente debelada pelos próprios parlamentares, que formavam uma espécie de cordão sanitário do “deixa disso”.
E ninguém pense que os contendores não eram combativos. Apenas eles não eram belicosos – defendia-se tenazmente os pontos de vista. Era porque deputados e senadores , em vasta maioria, seguiam o ritual da convivência, do respeito comum, que começa no vocabulário, e que é o que se espera de representantes do povo. Não era necessário retirar as crianças da sala para assistir aos debates da tevê.
Era um tempo em que os parlamentares eram conhecidos pelo nome. Não havia apelidos, codinomes. Só bem mais tarde é que se tornou comum chamá-los de pastor, delegado, sargento, coronel. Não era permitido entrar de chapéu no recinto, e menos ainda enrolado na bandeira nacional. Alguém chamado de Zé Trovão não entraria nas casas do Congresso com esse nome.
É bem verdade que os líderes do Congresso nessa época se chamavam Ulisses, Nelson Carneiro, Montoro, Fernando Henrique, Mário Covas, Miguel Arraes, Pedro Simon, Florestan Fernandes, Marco Maciel, Itamar Franco, Paulo Brossard…
* Tito Guarniere (titoguarniere@terra.com.br)