Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 30 de janeiro de 2026
O Brasil enfrenta um momento crucial em sua trajetória rumo à transição energética. Em 28 de janeiro, o Observatório do Clima, que reúne 161 organizações da sociedade civil, apresentou uma proposta dividida em três blocos: diretrizes de política energética e de transição setorial; governança e institucionalidade; e orçamento, financiamento e fundamentos econômicos. Essa iniciativa busca contribuir para o chamado mapa do caminho para o fim da dependência dos combustíveis fósseis, um compromisso do governo brasileiro apresentado durante a COP30, com prazo para entrega até 8 de fevereiro de 2026, conforme despacho presidencial emitido em dezembro de 2025. Diversas entidades, como o Instituto Internacional ARAYARA, o Observatório do Carvão Mineral, a Coalizão Não Fracking Brasil, o Observatório do Petróleo e Gás e a Instituição Fé, Paz e Clima, colaboraram para essas diretrizes e também manifestam suas posições críticas.
No entanto, o Brasil vive um paradoxo social inquietante. De um lado, há a indignação crescente diante das crises ambientais e políticas que ameaçam o futuro do país e do planeta. De outro, um comodismo que favorece governantes e mantém grande parte da população em uma postura passiva. Muitas pessoas, sobrecarregadas pela quantidade de informações e influenciadas por discursos superficiais das mídias e redes sociais, acabam repetindo opiniões sem aprofundar o debate. Esse cenário beneficia aqueles que preferem uma sociedade sem contestação, onde a apatia prevalece.
Nesse contexto, o papel de entidades como o Instituto Internacional ARAYARA torna-se fundamental. Durante a COP30, realizada em Belém do Pará, foi possível testemunhar a atuação firme dessa organização, que atua em diversas frentes: combate ao fracking, denúncia dos impactos socioambientais da exploração de carvão e petróleo, e promoção de alternativas energéticas sustentáveis. Um momento emblemático foi a entrega de documentos diretamente à ministra Marina Silva pelo ativista John Wurdig, simbolizando a interlocução direta entre sociedade civil e governo.
A ARAYARA tem alcançado resultados concretos, como campanhas que barraram projetos de fracking em estados brasileiros e ações judiciais contra licitações de blocos exploratórios em áreas sensíveis. Destaca-se também a mobilização contra a expansão do carvão mineral em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, onde a entidade não apenas denuncia os impactos ambientais e sociais, mas propõe alternativas de transição justa, incluindo programas de reconversão econômica para trabalhadores e comunidades afetadas.
Apesar dessas iniciativas, as entidades que colaboram para o plano de transição energética criticam duramente o descompasso entre discurso e prática do governo. Embora o despacho presidencial estabeleça um prazo para diretrizes rumo ao fim da dependência fóssil, observa-se o esvaziamento da pauta, com o mapa do caminho sendo suprimido do texto final da COP30, influenciado pelo lobby dos combustíveis fósseis. Além disso, a ausência de consulta pública e participação social na elaboração do plano é fortemente contestada, pois uma transição justa só pode ser construída com a sociedade civil.
Os dados de 2026 revelam uma expansão agressiva do uso de carvão, gás e óleo, com contratos vigentes até 2040 e novos leilões em áreas sensíveis da Amazônia, Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica. A falácia da transição justa é evidenciada pelos subsídios ao carvão, que não garantem empregos, mas apenas lucros para mineradoras, como demonstrado pelo fechamento da Mina Cruz de Malta em 2025, que resultou na demissão de 200 trabalhadores.
Diante desse cenário, as entidades exigem a suspensão imediata da contratação de novas térmicas fósseis, a ativação efetiva do Fórum Nacional de Transição Energética (FONTE) e o redirecionamento dos subsídios do carvão para planos de reconversão econômica. O Brasil enfrenta uma emergência climática sem precedentes, e organizações como a ARAYARA desempenham um papel essencial ao denunciar retrocessos e propor alternativas.
Essas entidades são a voz ativa contra o comodismo que domina grande parte da sociedade. Enquanto muitos se limitam a compartilhar informações superficiais e desinformação, elas se dedicam a estudos, pesquisas e ações concretas. A ciência permanece como a base de toda informação confiável, e as decisões políticas e sociais devem se apoiar no conhecimento produzido por especialistas comprometidos com o futuro da humanidade. É nesse embasamento que reside a esperança de uma transição energética justa e sustentável, capaz de superar a apatia e construir um Brasil mais consciente e engajado.
(Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética – contato: rena.zimm@gmail.com)