Segunda-feira, 02 de Novembro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 1 de novembro de 2026
Até o dono de uma das filmografias mais invejáveis de Hollywood tem arrependimentos e decisões de carreiras questionáveis. Para Brad Pitt, estrela de ‘Clube da Luta’ (1999) e ‘Onze Homens e um Segredo’ (2001), talvez o maior deles seja seu papel em ‘Troia’ (2004), uma adaptação – quase reimaginação – do poema épico ‘Ilíada’, de Homero, onde interpretou Aquiles, um corajoso guerreiro e herói épico que lutou na lendária guerra.
O longa recebeu críticas mistas e acabou taxado como um filme divertido e cheio de espetáculo, mas de pouca substância. O sentimento de Pitt quanto ao filme vai em uma linha semelhante, classificando o longa-metragem como raso e muito focado na visão e experiência de um herói de poucas nuances e que parece ser o centro da trama o tempo todo.
“Mas, em algum momento, ‘Troia’ se tornou algo comercial. Cada cena era tipo: ‘Aqui está o herói!’ Não havia mistério nenhum”, contou em entrevista anos depois. Inicialmente conhecido por seus papéis como galã, Brad Pitt se envolveu em diferentes projetos para se afastar dessa imagem e, de certa forma, voltar para tipos “mais simplórios”, para ele, parecia uma espécie de retrocesso.
Mas a escolha de participar do filme não partiu do artista, mas sim do estúdio e de cláusulas contratuais intrincadas. Pouco tempo antes, Brad Pitt desistiu de um projeto importante em Hollywood e ficou “devendo” o estúdio. Para “pagar sua dívida”, foi forçado a aceitar o papel de Aquiles.
O filme foi dirigido pelo alemão Wolfgang Petersen, conhecido por projetos diferentes e inovadores, mas também muito criticado por ceder ao cinema blockbuster padrão hollywoodiano, ponto parcialmente criticado, inclusive, pelo próprio Brad Pitt em ‘Troia’. Em entrevista, ele fez referência à produção ‘O Barco: Inferno no Mar’ (1981), projeto alemão e autoral do diretor, como “um dos maiores filmes de todos os tempos”, e, em seguida, ao tom mais comercial que ‘Troia’ tomou durante a produção.
Na época, a produção de ‘Troia’ foi considerada ousada, “uma das maiores e mais insanas apostas cinematográficas desde ‘Titanic’ (1998)”, escreveu a revista ‘Time’, em resenha, ainda em 2004. Além disso, a fama na indústria de que o diretor não era lá muito equilibrado, classificado até como “louco” por alguns executivos, também contribuiu para a atmosfera caótica no set, que, aliás, corria um grande risco de ser um enorme fracasso por seu lançamento concorrer com ‘Shrek 2’ (2004) e ‘Van Helsing: O Caçador de Monstros’ (2004).
Mas, ainda na pré-produção, o filme já enfrentava um grande problema: o filme não poderia ser gravado no local que realmente era Tróia no período do poema épico porque o lugar não era grande e suntuoso o suficiente — pesquisas feitas pelo diretor de arte indicavam que boa parte das construções tinha cerca de três metros, inclusive muralhas e portões, não exatamente um local “imponente” como planejavam representar.
Para resolver o problema da locação a solução era óbvia: construir uma cidade fictícia cercada por uma grande muralha com mais de 12 metros de altura, no Marrocos. Mas, com o início da Guerra do Iraque em 2003, a produção ficou receosa e com medo de possíveis ataques na região e resolveram passar a construção para o México.
Ainda no meio dessa mudança toda, a equipe parou em Malta para filmar algumas cenas e um editor do filme teve seu notebook – contendo gravações do filme – roubado, um dublê sofreu um acidente e acabou falecendo e fotos de Brad Pitt caracterizado como Aquiles enquanto usava o celular foram vazadas e viraram piada na web (redes sociais estavam nos seus primórdios).
Além disso tudo, as filmagens na praia em temperaturas muito altas levou parte do elenco, principalmente figurantes, ao limite. Pitt, ironicamente lesionou o tendão de Aquiles enquanto filmava uma cena de luta e a produção também ultrapassou o orçamento estimado várias vezes. Mas, felizmente, isso não foi um problema, porque o filme foi uma das maiores bilheterias de 2004 e faturou mais que o dobro de seu custo de produção (estimado em cerca de US$ 175 milhões, o filme faturou US$ 497,4 milhões em bilheteria).
Mesmo assim, Brad Pitt não é um grande fã de seu trabalho no longa. “Não foi doloroso, mas percebi que a maneira como o filme estava sendo construído não era como eu queria. Cometi meus próprios erros”, contou o ator em entrevista ao jornal ‘The New York Times’. Depois de seu trabalho em ‘Troia’, o ator decidiu que sempre levaria sua visão artística em consideração, trabalhando somente em produções que lhe interessassem.
Essa nova filosofia rendeu grandes produções como ‘Bastardos Inglórios’ (2010), de Quentin Tarantino, e ‘A Árvore da Vida’ (2011), um filme não linear sobre a vida e existência a partir de uma família comum do Texas em 1950, que venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 2011, com a assinatura de Terrence Malick.
Já como produtor, Brad Pitt também se aventurou por diferentes temas e mais recentemente, estrelou e produziu ‘F1: O Filme’ (2025), blockbuster em que interpreta um piloto que deixa a aposentadoria para formar uma equipe e treinar um novo talento.