Domingo, 16 de Agosto de 2026

Home Economia O que o Brasil ganha e o que arrisca ao acionar a Lei de Reciprocidade para revidar o tarifaço dos Estados Unidos

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A decisão do governo brasileiro de iniciar o processo que pode resultar em medidas de reciprocidade econômica contra o tarifaço dos Estados Unidos pode reforçar a posição do País nas negociações comerciais com Washington, mas também tem potencial de desencadear uma escalada de tensões que pode afetar a economia brasileira, segundo especialistas.

O governo deu os primeiros passos para usar os instrumentos previstos na chamada Lei da Reciprocidade Econômica — um novo mecanismo da legislação brasileira para disputas comerciais.

Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil iniciou o processo para mostrar que “não é pouca coisa” e que precisa “vencer os Estados Unidos pela narrativa”.

O próximo passo é uma análise formal por autoridades brasileiras para entender se o tarifaço dos EUA contra exportações brasileira está enquadrado na Lei de Reciprocidade — e se o governo poderá adotar as respostas previstas na legislação.

Ou seja, o Brasil não está — ao iniciar esta consulta — dando início imediato a retaliações.

Analistas destacam que o processo ainda deverá passar por etapas como consulta pública e avaliação da Câmara de Comércio Exterior (Camex), podendo se arrastar até depois das eleições de outubro.

Ainda assim, alertam para a possibilidade de uma nova reação por parte dos Estados Unidos.

Risco

Para Oliver Stuenkel, pesquisador da Universidade Harvard e do Carnegie Endowment for International Peace e professor da FGV, a imprevisibilidade do governo de Donald Trump e o contexto eleitoral dificultam antecipar qual seria a resposta americana, mas tentativas de intervenção no pleito de outubro não devem ser descartadas.

“A curto prazo, não acho que uma resposta dura por parte dos Estados Unidos seja o cenário mais provável”, diz. “Mas, mesmo sem a ativação da Lei de Reciprocidade, o governo americano podetomar medidas para tentar influenciar o processo eleitoral.”

“Não é uma situação sem riscos, mas não reagir também apresenta risco.”

Já a economista e professora do Insper, Juliana Inhasz, acredita que uma reação comercial por parte de Washington não é improvável.

“A economia americana, sob o mandato de Trump, tem se mostrado muito reativa e, em alguns momentos, bastante proativa em se posicionar diante de qualquer ameaça”, afirma.

E um novo anúncio, acrescenta, poderia abrir as portas para ainda mais embates e até uma guerra comercial.

“Donald Trump já havia deixado claro anteriormente que, diante de uma tentativa de reciprocidade, ele subiria ainda mais as tarifas”, diz Inhasz.

“Existe o risco de a situação tomar proporções gigantescas”, aponta. “Se os EUA impuserem mais taxas sobre os produtos brasileiros, isso pode virar uma ‘bola de neve’, elevando ainda mais os preços e piorando a situação econômica do Brasil.”

Na avaliação da economista, não seria surpreendente que os Estados Unidos anunciassem novas restrições ou sobretaxas a determinados setores brasileiros nas próximas semanas, mesmo sem uma decisão final do governo brasileiro.

Para Andreza Aruska de Souza Santos, diretora do Instituto Brasil da universidade King’s College London, há riscos econômicos, em geral, riscos em momentos eleitorais podem ter um alto custo.

“A posição diplomática do Brasil de certa forma está bem forte, como um país que vem sendo repetidamente punido e tem resistido sem muitas consequências”, diz.

A analista pondera que manter o status quo também tem custos, mas afirma que a retaliação teria consequências difíceis de medir.

Custo

Os especialistas alertam ainda que uma eventual aplicação das medidas previstas na Lei da Reciprocidade pode trazer custos relevantes para a própria economia brasileira.

Segundo Inhasz, o Brasil depende de uma série de produtos americanos de alto valor agregado, como medicamentos, defensivos agrícolas, máquinas, equipamentos e derivados de petróleo. Caso esses itens sejam alvo de tarifas adicionais, a tendência é que o aumento dos custos seja repassado às empresas e aos consumidores brasileiros.

“Quem vai pagar a conta somos nós mesmos”, afirma a economista. “O preço do produto aqui no Brasil aumenta, seja direta ou indiretamente.”

Ela explica que os impactos podem ocorrer tanto sobre produtos finais importados quanto sobre insumos utilizados por empresas brasileiras em suas cadeias produtivas. Nesse cenário, o risco é de aumento de preços e pressão adicional sobre a economia em um momento já marcado por incertezas.

Para Oliver Stuenkel, o simples aumento das tensões entre Brasília e Washington também influencia a percepção de investidores sobre o Brasil.

“A reação do mercado financeiro tende a ser sensível à possibilidade de uma escalada na relação comercial. Isso quer dizer que a avaliação do investidor é que aumenta um pouco o risco dos ativos brasileiros”, afirma. (Com informações da BBC News Brasil)

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