Sábado, 07 de Março de 2026

Home Alexandre Teixeira G. de Castilhos Rodrigues O tempo que nos resta

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Março chega sempre acompanhado de suas águas. As famosas “águas de março”, cantadas por Tom Jobim e imortalizadas na voz de Elis Regina, trazem consigo um curioso sentimento de renovação. É como se o céu resolvesse lavar o calendário e preparar o espírito para um novo ciclo.

É justamente neste mês que retomo minhas crônicas no jornal O Sul. E não poderia haver tema mais apropriado para esse retorno do que o próprio tempo.

Talvez porque, dentro de poucos dias, eu complete 55 anos de idade.

A idade não chega de repente. Ela se aproxima silenciosa, como um viajante que caminha ao nosso lado durante toda a estrada. Quando percebemos, já percorremos um longo trecho do caminho.

O filósofo romano Sêneca escreveu algo que atravessou dois mil anos com impressionante atualidade: “Não é que tenhamos pouco tempo, mas que perdemos muito dele.”

A frase é simples, quase austera, mas carrega a força de um espelho. Ela nos lembra que o problema da vida não está na brevidade do tempo, mas no modo como o utilizamos.

Talvez por isso o poeta gaúcho Mário Quintana tenha observado com sua delicadeza habitual que inventaram o tempo para que as coisas não acontecessem todas ao mesmo tempo. Para compreendê-lo, nós o dividimos em pedaços: anos, meses, semanas, dias.

Fatiamos o tempo como quem corta um pão quente sobre a mesa da vida.

Mas cada fatia é um pedaço da própria existência.

Ao olhar para essa divisão invisível, fiz um exercício simples — e ao mesmo tempo inquietante.

A expectativa média de vida do brasileiro gira em torno de 75 anos.

Se estou prestes a completar 55, significa que, estatisticamente, restariam 20 anos de caminhada.

Vinte anos.

Quando olhamos para o número isoladamente, ele parece confortável. Mas quando começamos a dividi-lo, percebemos o quanto o tempo é uma matéria delicada.

Cerca de um terço desses vinte anos será passado dormindo. Dormimos aproximadamente oito horas por dia. Em duas décadas, isso representa quase sete anos inteiros apenas no repouso inevitável da vida.

Sobram então cerca de treze anos acordados.

E desses treze, boa parte será dedicada ao trabalho, às responsabilidades e às engrenagens inevitáveis do cotidiano.

O que resta é o verdadeiro espaço da vida: o tempo de viver de fato.

Tempo para olhar nos olhos de quem amamos.

Tempo para cultivar amizades.

Tempo para aprender algo novo.

Tempo para deixar alguma marca no caminho.

Ainda existem aqueles que ultrapassaram a média estatística dos 75 anos — a chamada expectativa média de vida. Esses caminham além da régua fria dos números. Se não enfrentam enfermidades graves, somam ao calendário mais cinco, dez, às vezes quinze anos de existência. E assim, não raro, alcançam os noventa ou mais. De certa forma, parecem compensar a balança da própria vida, equilibrando os que partiram cedo demais. Como se o tempo, em sua misteriosa matemática, permitisse que alguns avancem além da média para recordar que viver é mais do que cálculo — é também um milagre cotidiano.

Talvez seja exatamente isso que Sêneca queria dizer quando afirmava que a vida é suficientemente longa para quem sabe utilizá-la bem.

O problema não está na quantidade de anos, mas na distração com que frequentemente atravessamos o calendário.

Vivemos como se o tempo fosse infinito.

Adiamos encontros. Adiamos palavras. Adiamos sonhos.

Mas o tempo não espera.

Ele escorre como as águas de março descendo pelas ruas da cidade — passa diante de nós e não retorna.

Por isso, a pergunta essencial talvez não seja quanto tempo temos, mas o que faremos com o tempo que nos resta.

Se nesses anos que ainda podem estar à frente — sejam vinte, trinta ou apenas alguns — eu puder viver com intensidade, trabalhar com propósito e construir algo digno de memória, então o tempo terá cumprido sua missão.

Não se trata de fama.

Trata-se de deixar lembranças.

Gestos.

Histórias.

Pequenos registros na memória daqueles que caminharam conosco.

A própria Bíblia nos lembra, no livro do Eclesiastes, que há um tempo para todas as coisas debaixo do céu: tempo de plantar e tempo de colher, tempo de construir e tempo de contemplar.

Talvez a maturidade seja justamente compreender que o relógio não mede apenas horas.

Ele mede o valor da vida que decidimos viver.

(Alexandre Teixeira G. de Castilhos Rodrigues, advogado e escritor – castilhosadv@gmail.com – @castilhosadv)

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