Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2026

Home Educação Ondas de calor aumentam chances de abandono no ensino médio público, aponta estudo

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A ocorrência de mais dias com temperaturas acima de 34°C aumenta em 5% a chance de estudantes do ensino médio abandonarem os estudos nas escolas públicas do Brasil. A conclusão é de um estudo de pesquisadores da FGV e da Universidade Minerva, nos Estados Unidos.

Diversas pesquisas já haviam indicado que o aumento do calor prejudica a cognição humana e atrapalha o rendimento escolar, mas esse é o primeiro estudo a mostrar que o aquecimento global também contribui para o aumento da evasão escolar.

O estudo identificou ainda que esse efeito negativo acontece apenas nas escolas públicas, especialmente aquelas localizadas em áreas urbanas. Nas escolas privadas, que geralmente dispõem de melhores recursos para mitigar o calor, não foram encontradas alterações significativas.

Por isso, os pesquisadores apontam que o aumento de dias mais quentes pode aprofundar ainda mais as desigualdades educacionais brasileiras. Os dados dessa pesquisa foram publicados em um artigo da revista científica Nature Climate Change, uma das mais influentes na área de ciências climáticas.

Para Julio César dos Santos, um dos autores do artigo, o aumento da chance de evasão acontece porque os adolescentes, que já têm uma baixa percepção dos benefícios de concluir os estudos, passam a ter mais dificuldade para aprender com o desconforto térmico na escola.

“Acima dos 27°C, alguns mecanismos cerebrais importantes para o aprendizado são prejudicados, por exemplo, a capacidade de concentração, autorregulação e autocontrole. Isso desestimula ainda mais o jovem a ir à escola, porque ele sente mais dificuldade em aprender e pode acabar abandonando os estudos”, diz Santos, que é professor do programa de pós-graduação em neurociência da UFF (Universidade Federal Fluminense).

Ele destaca ainda que, além dos efeitos cognitivos diretos, o calor noturno prejudica o sono restaurador, responsável por consolidar o que foi aprendido durante o dia.

“É uma combinação extremamente danosa para o aprendizado. O aluno não tem na escola nem em casa estruturas que poderiam minimizar o calor, assim ele tem mais dificuldade de aprender e de consolidar o pouco que aprendeu.”

Para medir o impacto do calor na evasão escolar, a pesquisa analisou dados do Censo Escolar de mais de 80,7 milhões de matrículas em mais de 30 mil escolas do país de 2007 a 2016. Também utilizou dados do ERA5, produzido pelo Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, que fornece informações sobre temperaturas diárias em alta resolução.

A análise não encontrou efeitos significativos do aumento de calor entre estudantes do 1º ao 9º ano do ensino fundamental das redes públicas nem entre estudantes de escolas particulares.

Fatores

“Diversos fatores contribuem para a evasão escolar, todos eles estão sempre associados à desigualdade socioeconômica. Alunos mais pobres, pretos, pardos e indígenas têm maior risco de deixar os estudos. São eles também que estão matriculados nas escolas que sofrem mais com o calor, já que essas unidades têm pior estrutura.”

Para ele, os dados trazem informações importantes de ações que podem ser adotadas pelos governantes para reduzir esse efeito negativo. “Há um fator a mais que contribui para aumentar a desigualdade educacional, mas ele pode ser mitigado com a melhoria de infraestrutura das escolas.”

O texto aprovado pela Câmara dos Deputados para o PNE (Plano Nacional de Educação), com meta a ser atingida na área até 2034, trouxe pela primeira vez um conjunto de medidas que devem ser implementadas pelas redes de ensino para adaptar as escolas ao aumento de dias quentes e eventos extremos.

A lei estabelece, por exemplo, que todas as redes de ensino devem elaborar e implementar planos de prevenção, mitigação e adaptação às mudanças climáticas nas escolas até o fim da vigência do plano. Também prevê que até 2023 todas as escolas tenham estrutura física que atenda a “padrões de conforto térmico”.

Pela primeira vez, também estabelece que o governo federal e os estados são responsáveis por garantir os recursos necessários para essas adaptações.

O cumprimento dessas metas, no entanto, é um grande desafio para o país. Um estudo feito pelo Ciepp (Centro de Inovação para a Excelência das Políticas Públicas) aponta que apenas 33% das salas de aula das escolas públicas do país eram climatizadas em 2023, segundo o Censo Escolar. Mesmo na rede particular menos da metade é climatizada (47%).

“Quem já tem condições menos favoráveis para estudar passa a contar com mais um fator de desvantagem. Esse é mais um motivo pelo qual precisamos dar respostas mais rápidas para as mudanças climáticas que estamos vivendo”, destaca Santos. (As informações são da Folha de S. Paulo)

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