Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 28 de janeiro de 2026
Um estudo examinou a associação entre sintomas depressivos específicos na meia-idade e o risco de desenvolvimento de demência ao longo de 23 anos. Os pesquisadores, que descreveram seus achados em uma publicação na revista científica The Lancet Psychiatry, analisaram 30 sintomas da depressão em pessoas na meia-idade e perceberam que seis deles eram indicadores robustos de risco de demência a longo prazo.
São eles: Perda de confiança em si mesmo; Dificuldade de concentração; Não conseguir enfrentar problemas;
Não sentir afeto pelos outros; Estar nervoso e tenso o tempo todo; Não estar satisfeito com a forma como as tarefas são realizadas.
Esses sintomas demonstraram persistência moderada a forte ao longo do tempo (em torno de 10 anos), o que reforça a necessidade de considerá-los como um sinal de alerta de longo prazo para o risco de demência, de acordo com a publicação.
Mesmo quando foram considerados outros fatores já conhecidos que aumentam o risco de demência, como hipertensão e diabetes, a relação entre esses seis sintomas e a demência permaneceu. Isso sugere que eles podem ser sinais iniciais de alterações no cérebro ligadas à demência, e não apenas efeitos de problemas de saúde ou de hábitos de vida.
O estudo analisou uma amostra de 5.811 participantes, avaliados por cerca de 22 anos. A idade média deles no início da pesquisa era de 55 anos (o intervalo ia de 45 a 69 anos).
O aumento do risco de demência está associado especificamente à presença de ao menos um dos seis sintomas identificados no estudo, mas é possível inferir que “embora a presença de qualquer um dos sintomas seja um sinal, uma maior quantidade e intensidade deles provavelmente conferem um risco ainda maior”, afirma o psiquiatra Rodolfo Damiano, que não participou do estudo.
Por outro lado, nos pacientes que apresentavam exclusivamente um ou mais dos outros 24 sintomas avaliados, não se observou aumento. Em outras palavras, nem todo sintoma depressivo está ligado à demência.
Isso ficou evidente quando os pesquisadores retiraram da análise os participantes que apresentavam qualquer um dos seis sintomas – nesse cenário, o índice de risco caiu de forma significativa e passou a ficar abaixo do risco padrão da amostra, indicando que a depressão sem esses sintomas não esteve associada a maior risco de demência.
Mas a ausência desses seis sintomas não é uma garantia de que a pessoa nunca desenvolverá demência, já que essa é uma doença neurológica multifatorial, com causas e fatores de risco genéticos e de estilo de vida.
Origem dos sintomas
Os pesquisadores também analisaram a origem dos sintomas depressivos, classificando-os como sintomas causados por processos neurodegenerativos – caso de perder a confiança em si mesmo e da dificuldade de concentração – ou aqueles causados por estresse, fatores psicossociais, ansiedade, entre outros fatores.
A hipótese defendida por eles é de que, no primeiro caso, o sintoma depressivo é um marcador precoce de um processo cerebral em curso que aumenta as chances do desenvolvimento da demência. O sintoma depressivo seria um sinal inicial, enquanto a perda de memória, por exemplo, seria um sintoma da doença já avançada.
A vantagem de identificar os primeiros sinais associados ao processo neurodegenerativo é antecipar o diagnóstico da demência e “tentar parar a doença” no início, afirma o neurologista Wylliians Borelli, membro do Departamento Científico de Cognição e Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia.
“A pessoa primeiro perde a confiança em si mesma e depois ela vê que está esquecida, e depois isso é diagnosticado como uma demência”, diz o especialista, que também não fez parte da pesquisa.
Depressão não é uma doença única
Para os autores do estudo, o principal ganho em distinguir o risco dos sintomas depressivos está em superar a visão da depressão como um fenômeno único e reconhecer que ela pode se manifestar de formas diferentes.
Ao analisar quais sintomas estão presentes, os médicos conseguem diferenciar pacientes de meia-idade cuja depressão pode indicar um processo neurodegenerativo – e, portanto, maior risco de demência – daqueles cujos sintomas provavelmente têm outras causas – e não aumentam o risco de demência. Isso permite avaliar melhor o quadro e direcionar o tratamento de forma mais adequada.
Damiano diz que os achados do estudo estão alinhados com o conhecimento prévio de que a depressão é um fator de risco para a demência. A grande novidade é a desconstrução da doença como uma “entidade única”. “Embora a heterogeneidade da depressão seja discutida na prática clínica, esse estudo é um dos primeiros a fornecer evidências epidemiológicas robustas de que sintomas depressivos específicos e persistentes na meia-idade têm diferentes pesos na associação com o risco de demência.”
“Isso representa um avanço importante, pois sugere que o foco em perfis de sintomas específicos, em vez de um diagnóstico geral de depressão, pode ser mais útil para a estratificação de risco e prevenção da demência”, afirma Damiano, que é coordenador do Ambulatório de Depressão Resistente ao Tratamento, Autolesão e Suicidalidade da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).