Domingo, 31 de Maio de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 31 de maio de 2026
A controvérsia que cerca a classificação de facções brasileiras como terroristas pelo governo dos Estados Unidos provocou uma corrida nas duas principais campanhas ao Planalto para colher dividendos eleitorais. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) planeja repetir a estratégia usada durante o “tarifaço” de Donald Trump e apostar no discurso de defesa da soberania nacional. Do outro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) quer usar a reação negativa do governo para reprisar a narrativa de que o petista “defende bandido”. A segurança é a principal preocupação atual dos brasileiros, como mostram pesquisas, mas a percepção sobre a ação americana no combate ao crime organizado provoca divisões.
A segurança pública é um tema sensível para o governo Lula, que não conseguiu apresentar resultados perceptíveis na área ao longo do mandato. Diante disso, o plano do PT é focar na atuação de Flávio em favor da designação como organização terrorista para o Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), anunciada dois dias depois de o senador se reunir com Trump na Casa Branca e defender a medida.
Os petistas pretendem propagar que, enquanto Flávio quer vencer a eleição para entregar o país aos americanos, o atual presidente brasileiro luta pela soberania do país. A tese se apoia no fato de que a decisão dos EUA pode abrir brecha para uma intervenção do governo Trump no Brasil, além de trazer prejuízos potenciais a empresas nacionais que atuam no exterior. A estratégia foi explicitada em nota divulgada na sexta-feira e no discurso de Lula no mesmo dia.
A linha será semelhante à adotada em julho do ano passado, após Trump anunciar uma alíquota de 50% de tarifa para produtos brasileiros exportados ao país e usar, entre as justificativas, a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Houve, à época, a avaliação de que a resposta dada ao tarifaço foi um ponto de virada para o governo.
Pesquisa Quaest divulgada em agosto de 2025, um mês após o anúncio da taxação, mostrou uma redução de dez para cinco pontos no saldo negativo na avaliação da gestão de Lula. Os números foram atribuídos à reação contra a medida de Trump.
Dessa vez, porém, o presidente precisou calibrar o discurso. Ao mencionar a decisão dos EUA sobre as facções brasileiras em sua primeira manifestação pública, o petista não deixou de atacá-las, com o objetivo claro de neutralizar a tática adversária de acusá-lo de leniência com criminosos.
— Estou muito triste com a noticia de que o secretário dos EUA, Marco Rubio, disse que os nossos criminosos são terroristas e que os americanos podem fazer intervenção. Comando Vermelho e PCC são terroristas para as comunidades brasileiras. Vamos combatê-los aqui dentro — disse Lula na sexta.
A reação de Flávio não demorou. Horas depois, divulgou um vídeo no qual explorou o fato de Lula ter se referido ao PCC e ao CV como “nossos criminosos”. A estratégia também incluiu menções à “soberania” feitas pelo petista ao defender ser preciso liberar a população brasileira do domínio de traficantes.
— Um em cada quatro brasileiros vive em áreas dominadas por narcotraficantes. Essas pessoas não têm soberania nem dentro da própria casa — argumentou o senador, em outra publicação sobre o tema.
A frase resume a linha que orientará a comunicação da campanha. Em vez de discutir a legitimidade da decisão, a orientação é questionar a capacidade do Estado brasileiro de exercer autoridade em áreas controladas por facções.
Auxiliares resumem a estratégia da seguinte forma: enquanto o governo pretende enfatizar a soberania do Estado brasileiro diante de uma decisão tomada por outro país, Flávio planeja discutir a soberania do cidadão comum diante do avanço do crime. A ideia é que esse raciocínio seja reproduzido em discursos, entrevistas, conteúdos digitais e outros materiais, sempre associado a dados sobre o avanço territorial das facções e à presença do crime organizado em diferentes regiões do país. As equipes de comunicação já discutem peças específicas para explorar esse enquadramento nas redes sociais.
— Não é uma associação com o Trump. É uma proteção ao povo brasileiro, que vai se desvencilhar desse perigo. É completamente diferente — afirmou o publicitário Eduardo Fischer, que integra a campanha de Flávio.
Visita a Jair
Após voltar dos EUA, Flávio visitou o pai, que cumpre prisão domiciliar. Na ocasião, relatou detalhes da visita a Trump. Segundo interlocutores, Bolsonaro avaliou que a agenda foi bem-sucedida e orientou o filho a explorar politicamente os desdobramentos da decisão americana.
Na equipe de Flávio, a decisão dos EUA sobre as facções brasileiras também foi vista como oportunidade para recolocar a candidatura em terreno mais confortável, após semanas de desgastes provocados pela crise envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro. Entre lulistas, porém, as revelações da relação do dono do Master com Flávio continuarão a ser usadas como arma. Com informações do portal O Globo.