Sexta-feira, 19 de Junho de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 19 de junho de 2026
Assisti ao noticiário desta semana e uma informação me chamou a atenção. O Exército Brasileiro está buscando apoio para restaurar o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Rio de Janeiro. Em meio a tantas notícias que surgem e desaparecem no mesmo dia, aquela ficou comigo.
Talvez porque o monumento diga respeito a uma geração que está desaparecendo. Talvez porque, à medida que o tempo passa, a memória também precise de manutenção.
Quando pensamos na participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, os números costumam aparecer primeiro. Mais de vinte e cinco mil homens enviados à Itália. Cerca de quatrocentos e setenta mortos em combate. Mas números, sozinhos, não contam histórias.
Por trás de cada cruz que retornou ao Brasil havia um rosto, uma família e uma vida interrompida. Havia um rapaz que não voltou para o casamento marcado. Um filho que nunca mais sentou à mesa dos pais. Um irmão cuja fotografia permaneceu por décadas em alguma sala modesta do interior do país.
A Força Expedicionária Brasileira foi formada por brasileiros comuns. Não eram guerreiros profissionais moldados desde a infância para o combate. Eram estudantes, operários, comerciários, agricultores. Muitos jamais haviam saído de suas cidades. Alguns nunca tinham visto neve. Ainda assim, atravessaram o oceano para lutar numa guerra que parecia distante da realidade brasileira.
E lutaram.
Lutaram em Monte Castello, em Montese, em Castelnuovo, em tantos lugares cujos nomes hoje dizem pouco à maioria dos brasileiros, mas que continuam carregados de significado para quem conhece aquela história. Enfrentaram o frio, a artilharia, o medo e a incerteza. Como todos os soldados em combate, não sabiam se estariam vivos no dia seguinte.
É fácil esquecer isso oitenta anos depois.
Afinal, pertencemos a uma geração que conhece a guerra principalmente pelos livros, pelos filmes e pelos documentários. Os pracinhas, porém, conheceram a guerra pelo cheiro da pólvora, pela lama das estradas italianas e pelo silêncio pesado que fica depois de um combate.
Por essa razão, a restauração do monumento vai muito além de uma obra física. Não se trata apenas de recuperar mármore, concreto ou bronze. Trata-se de preservar um lugar onde a nação pode olhar para trás e lembrar de homens que fizeram mais do que lhes era exigido.
Monumentos existem justamente para isso. Não para celebrar a guerra, mas para recordar seus custos. Para lembrar que a liberdade, tantas vezes tratada como algo natural, já exigiu sacrifícios que hoje parecem quase inimagináveis.
Sempre que visito um memorial militar, lembro de uma observação atribuída a vários veteranos de guerra: os verdadeiros heróis são aqueles que não voltaram. Há uma simplicidade dolorosa nessa frase. Ela nos recorda que a história costuma ser escrita pelos sobreviventes, mas é sustentada também pela memória dos ausentes.
O monumento do Aterro do Flamengo guarda exatamente essa memória. Ali repousam homens que partiram do Brasil para enfrentar uma tirania que ameaçava o mundo e que jamais tiveram a oportunidade de envelhecer.
Por isso, a iniciativa de restaurá-lo merece aplauso. Não por saudosismo, nem por culto militar, mas por respeito histórico.
Os países que esquecem seus mortos acabam, pouco a pouco, esquecendo também as lições que eles deixaram.
E algumas lições custaram vidas demais para serem abandonadas ao desgaste do tempo.
E talvez seja exatamente isso que a restauração daquele memorial simbolize: a recusa de um país em abandonar seus heróis ao silêncio do tempo.
Amílcar Fagundes Freitas Macedo – gabinete-amilcar@tjmrs.jus.br
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