Terça-feira, 16 de Julho de 2024

Home em foco Para brasileiros que moram na Argentina, qualidade de vida compensa o caos econômico no país

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Quando a bordadeira Nayara Fonseca, de 36 anos, decidiu ir para a Argentina, há quase três anos, a pandemia de covid ainda estava longe de terminar. Foi exatamente pelo temor do rumo que a crise sanitária tomava no Brasil que, ao lado do marido, o designer de games Leandro Teichimann, de 37 anos, desembarcaram em Buenos Aires em um data simbólica: dia 24 de dezembro de 2020. Eles não são os únicos. Movidos por diferentes razões, pelo menos 90 mil brasileiros vivem no país vizinho, segundo dados do Ministério das Relações Exteriores.

Para fixar moradia em terras argentinas, esses migrantes precisam lidar com os desafios de uma economia caótica. Em outubro, a inflação anual bateu 142,7%, quase 30 vezes superior à taxa brasileira.

Também devem se acostumar com a calculadora para entender oscilações bruscas do peso argentino, que tem múltiplas cotações. De acordo com o Banco Central local, R$ 1 equivale a cerca de 73 pesos argentinos pela cotação oficial, mas na prática a divisa chega a ser vendida a 200 pesos. De qualquer forma, brasileiros residentes na Argentina entendem que a qualidade de vida supera a instabilidade econômica.

No caso de Nayara, a ida à Argentina seria temporária, por apenas três meses. Quando o casal e a filha Amora de 2 anos, hoje com 5 anos, partiram em dezembro de 2020 imaginavam que a pandemia logo iria ser contida. Os 90 dias viraram três anos.

Um dos motivos para a permanência envolveu o bem-estar da filha. “Pensava que se estivesse em São Paulo a menina estaria trancada em um apartamento, não teria condição material de fazer tanta coisa”, diz. A oferta de parques e a sensação de segurança proporcionaram para a família um novo estilo de vida, afirma Nayara.

A questão financeira é outro fator que mantém o casal na metrópole de 16 milhões de habitantes. Após se mudar, Nayara pediu demissão na escola em que trabalhava e começou a dar aulas particulares de bordado. Já Leandro, que é sócio de uma empresa brasileira de realidade virtual, seguiu trabalhando remotamente.

Como a renda da família é majoritariamente em real, a conversão favorável abriu caminhos para uma vida mais confortável. “Isso faz muita diferença, nosso dinheiro rende muito mais aqui. Não somos ricos, mas em comparação ao Brasil temos acesso a coisas que não tínhamos. Por exemplo, ir comer fora toda semana sem ter impacto na saúde financeira”, afirma.

Moradia

No Brasil, o casal vivia no bairro Vila Madalena, zona oeste da cidade de São Paulo. A mensalidade do colégio em que Amora estuda custa um terço da escola paulistana. O apartamento em que moram desde março é pago em pesos argentinos. Atualmente, a moradia custa menos de um terço se comparado ao aluguel de São Paulo. “O valor que pago não existe mais, nem quitinete, porque (os preços) sobem muito.”

Mas até conseguir um contrato de aluguel fixo, chamado de Largo Plazo (contrato de três anos), passaram por diferentes locações no Airbnb, em algumas situações chegaram a pagar em dólar. “A proprietária começou a fazer reajustes em dólar, mesmo sabendo que isso não era ético.”

Moradia fixa para estrangeiros ainda é algo complexo na Argentina. Metade dos anúncios de aluguel destinados a residência, em Buenos Aires, exige que o pagamento seja em dólar, como revela um estudo produzido pelo Mercado Livre e pela Universidad San Andrés, de Buenos Aires, em junho de 2023.

“Conseguimos uma garantia imobiliária como fiador de uma família da escola (em que a Amora estuda). Mesmo assim, deixamos um depósito em dólar com os proprietários. Fizemos tudo por imobiliária, mas eles têm bastante receio e geralmente aluguel para estrangeiro costuma ser dolarizado.”

O economista e professor da Fundação Getulio Vargas Renan Pieri explica que a prática de cobrar aluguel em dólar é uma resposta à alta inflação argentina. A instabilidade econômica leva os argentinos a buscar moedas mais estáveis, como o dólar, no mercado paralelo.

“Se um trabalhador ganha em peso argentino e precisa pagar o aluguel em dólar, caso o salário não acompanhe os aumentos nos preços, é natural que ele perca poder de compra,” afirma.

Quando o câmbio desvaloriza, como ocorreu nos últimos meses, o aluguel em dólar se torna mais caro. A hiperinflação impõe desafios adicionais à estabilidade da vida argentina, diz Pieri. A dificuldade de avaliar se um produto está caro ou barato, por exemplo, é uma grande dificuldade, segundo ele.

Valores

De modo geral, Buenos Aires é 30,6% mais barata que São Paulo, sem incluir o aluguel, que é, em média, 29,2% menor que a capital paulista. Por outro lado, o salário mínimo estabelecido para dezembro, fixado em 156 mil pesos (por volta de R$ 2,1 mil), é 46% menor do que o custo da cesta básica para uma família de quatro pessoas, 345.295 pesos ou R$ 4,6 mil, conforme indicado pelo Indec Argentina.

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