Domingo, 18 de Janeiro de 2026

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Vamos começar pelo começo: liberdade.

A liberdade não acaba de uma vez. Ela não cai com um estrondo, não some da noite para o dia. Não. A liberdade vai sendo negociada. Um pouquinho hoje, outro amanhã. Sempre com um discurso bonito, quase irrecusável: “é para organizar”, “é para proteger”, “é para evitar abusos”.

Aos poucos. “Pasito, pasito”. Comendo pelas beiradas. É assim que eu enxergo o PL 5990/2025, que propõe novas regras para influenciadores digitais. A justificativa é conhecida: impedir a disseminação de informações falsas. O efeito, nem tanto — ou, pensando bem, talvez conhecido demais por quem estuda regimes autoritários.

Quando o Estado começa a flertar com a ideia de que só quem tem credencial, autorização (ou, pasme, diploma!) pode falar sobre determinados assuntos, o sinal de alerta deveria soar alto. Muito alto. Porque isso não é inovação democrática. Isso é método!

Método já testado na China, onde o governo define quem pode opinar, ensinar, informar. Lá, a palavra é controlada, o pensamento é vigiado e o silêncio é imposto como virtude cívica.

Sempre começa assim. Nunca dizem “vamos censurar”. Dizem “vamos regular”. Nunca dizem “vamos calar”. Isso seria objeto de protesto. Portanto, não. Eles tentam nos enganar. Fingem que estão nos protegendo. Dizem “vamos responsabilizar quem faz errado”. Seria lindo se não fosse absolutamente utópico.

Sabe por que? Quando alguém passa a decidir quem pode falar, o próximo passo é decidir o que pode ser dito. E, logo depois, o que deve ser punido. E isso é extremamente subjetivo. Isso é o que me dá medo.

Então, como eu vejo isso? Ora, é uma tentativa clara de calar muita gente. Gente comum. Gente que questiona. Gente que incomoda. Porque o cerceamento dos direitos civis não começa com violência explícita — começa com leis bem-intencionadas e aplausos distraídos.

E é aí que começa a doer de verdade.

Veja o caso do Irã. Lá, a realidade, agora, transbordou. Ela é brutal. Escancarada. Jovens morrem por protestar. Mulheres são presas por mostrar o cabelo. Advogados são perseguidos. Redes sociais são censuradas. A Justiça não julga — pune. O Estado não protege — controla.

Ali, ninguém finge que é democracia. É tirania assumida. Só não ver quem não quer (no caso, inclua nessa conta os petistas, a ONU, a Gretha, os defensores dos direitos humanos). O que choca (ou deveria chocar) não é só a violência do regime iraniano. É o silêncio internacional. Onde estão os ativistas? Os militantes? Os grandes defensores dos pobres e oprimidos? As campanhas globais? As hashtags indignadas? SILÊNCIO,

Sabe por que? Aparentemente, essa causa não rende. Porque o opressor não é o “inimigo certo”. Porque os direitos humanos, hoje, parecem ter endereço ideológico.

Isso tem nome: hipocrisia.

E talvez o aspecto mais perigoso disso tudo seja perceber que começamos a achar o autoritarismo aceitável…Ah, mas desde que venha com a embalagem certa. Desde que seja “para o bem”. Desde que seja “temporário”. Desde que não nos atinja diretamente.

É aqui que o espelho se vira para o Brasil. Bora pensar em como isso se reflete aqui? Claro que sim. Então eu te pergunto: como ainda aceitamos o que está acontecendo no Supremo Tribunal Federal?

Como nos acostumamos a inquéritos instaurados sem fato novo, processos sob sigilo absoluto, uma concentração de poder que mistura investigar, acusar e julgar, e contratos milionários orbitando o mesmo ambiente institucional que deveria zelar pela imparcialidade?

Casos recentes envolvendo Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, especialmente no contexto do chamado Banco Master, levantam perguntas que não são ideológicas — são institucionais. Novo inquérito. Sigilo. Questionamentos sobre imparcialidade. Um contrato de R$ 129 milhões tratado como detalhe técnico. E era isso.

Desde quando transparência virou ameaça?

Desde quando questionar virou crime?

Desde quando pedir limites virou extremismo?

O fio que liga o projeto de lei que regula a fala, a tirania iraniana e os excessos institucionais brasileiros é o mesmo: a normalização do absurdo.

Aceitamos porque “não é comigo”. Aceitamos porque “é só uma exceção”. Aceitamos porque “confia nas instituições”.

Até o dia em que não é exceção. Até o dia em que é com você. Até o dia em que a liberdade vira concessão.

A história é autoexplicativa: a tirania não chega gritando. Ela chega educada, de terno, com linguagem técnica e justificativas nobres. E quando percebemos, o espaço para discordar já encolheu demais.

Então, eu deixo a pergunta necessária (e, sim, eu sei que dói): em que momento começamos a achar tudo isso normal?

Porque quando o Estado passa a decidir quem pode falar, o que pode ser dito e quem deve ser calado… ora, ora! O fim da história pode contar várias versões, mas NENHUMA DELAS  será a liberdade.

Ali Klemt

@ali.klemt

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