Terça-feira, 28 de Maio de 2024

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Por pelo menos duas semanas, o Brasil exercitou uma emoção coletiva que se repete há cada quatro anos, com a regularidade garantida por ser a única seleção de futebol a participar até hoje de todas as copas do mundo. Durante essa Copa, brasileiros, de norte a sul do País esqueceram, pelo menos até certo ponto, as diferenças que marcaram os últimos anos, particularmente em relação à atual divisão política que nos acomete, torcendo e vibrando apaixonadamente pelas cores nacionais. Apesar desse fervor cívico e desportivo, o imponderável, tão característico nos esportes e especialmente no futebol, nos fez voltar mais cedo para casa, novamente eliminados por uma equipe europeia, nas quartas de final do torneio. Após a derrota, a trégua proporcionada fugazmente pela atenção à seleção canarinho acabou, e as críticas dirigidas ao treinador Tite e ao jogador Neymar, trataram de plasmar o atual quadro de tensão política que vivemos. A severidade dos ataques a ambos revela que o futebol continua sendo algo bem maior do que somente um esporte, como também denotam as suspeitas que estariam por trás da escolha do Catar como país-sede da Copa, escândalo apenas semelhante à escolha da Argentina, em 1978, mesmo estando aquela nação mergulhada numa ditadura que resultaria na morte ou desaparecimento de mais de 30.000 cidadãos portenhos.

A explosão do marketing midiático e a profissionalização crescente dos clubes e federações de futebol aumentaram a conexão emocional com um público cada vez mais aficionado e transformaram esse esporte numa indústria bilionária. Antes disso, porém, o futebol já era entendido como um fenômeno de enorme potencial psicossocial, capaz de mover as paixões de maneira avassaladora. Nélson Rodrigues, dramaturgo brasileiro, foi bastante arguto ao perceber, ainda nos primórdios do futebol enquanto espetáculo televisivo, que a dimensão desse esporte transbordava para muito além dos gramados. Ao afirmar que somos uma “pátria de chuteiras”, obviamente, Nélson Rodrigues não fazia menção apenas ao futebol em si, mas à relação profunda dessa prática esportiva com a cultura nacional e sua importância política, social, cultural e emocional, profundamente entranhada na vida nacional. Catalisador das paixões, o futebol serviu ainda, em vários momentos históricos, de subterfúgio para alívio de problemas mais profundos, não estando livre também da sanha de políticos ávidos por capitalizar os êxitos da equipe verde e amarela, sabedores da relação visceral existente entre esse esporte e o imaginário coletivo.

Considerando a dimensão ampliada que o futebol detém, é evidente que o mesmo não escapa de outros olhares que não sejam meramente desportivos. No momento em que o País precisa caminhar para um processo de reconstrução de relações entre os cidadãos, estilhaçadas pelo radicalismo político, as lições extraídas pelo senso de grupo presentes nas competições esportivas podem servir de norte para uma moldura social menos sectária, mais aberta e inclusiva. As emoções coletivas, ao contrário de serem canalizadas para o ódio, para o divisionismo, para a mentira e para a violência, podem encontrar, nas premissas do futebol, um leque bastante amplo de possibilidades.

Nesse sentido, Emile Durkheim, argumenta que a comunidade, o grupo e a presença do outro podem despertar um conjunto de sentimentos contrários à segregação fanatizada, que cega e oprime. O próprio ato de congregar é um estimulante excepcionalmente poderoso. Uma vez que indivíduos estão reunidos, um tipo de conexão é criada a partir de sua proximidade e rapidamente as lança em um nível extraordinário de êxtase. É esse “efeito colmeia”, onde a coesão e os propósitos em comum dominam os sentimentos e projetam uma ideia de unicidade e sintonia que pode ser expandido para além de espasmos quadrienais, durante as copas. Embora a sociedade não consiga coexistir em permanente sintonia, é promissor imaginar que o futebol nos traga essa possibilidade, mesmo que fugaz, de imaginar que uma convivência mais harmoniosa entre todos nós seja possível.

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