Sábado, 28 de Fevereiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 27 de fevereiro de 2026
Ainda antes de sua divulgação oficial, quem viu a pesquisa eleitoral Atlas/Bloomberg previamente a apelidou de “pesquisa do Carnaval”. O levantamento mostrou pela primeira vez o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na simulação de segundo turno, ainda que por apenas 0,1 ponto percentual (46,3% a 46,2%).
O crescimento de Flávio Bolsonaro não é uma tendência recente e já foi captado por outros levantamentos, mas o recuo de Lula é novidade. No cenário de primeiro turno Lula vinha em recuperação nas últimas rodadas, passando de 48,1% para 48,8%. Caiu para 45%. Flávio subiu de 29,3% em dezembro para 35% em janeiro e agora para 37,9%. A diferença, antes de 13,8 pontos percentuais em janeiro, agora é de 7,1 pontos percentuais.
O problema não é o governo, é a visão do eleitorado sobre o presidente Lula. De acordo com a pesquisa, a soma da avaliação da administração tida como ruim ou péssimo oscilou de 48,5% para 48,4%. Mas a desaprovação ao presidente Lula, pessoa física, subiu de 50,7% para 51,5%.
Fevereiro normalmente é um mês de poucos acontecimentos e nada rivaliza com o Carnaval. Não é preciso muito esforço para entender o que aconteceu. A Sapucaí levou Lula a perder de dois a três pontos percentuais nos cruzamentos.
Lula provocou um dano autoinfligido ao embarcar na catastrófica ideia de se associar a um desfile bajulatório de uma escola de samba que decidiu homenageá-lo no enredo. Por muito pouco a primeira-dama, Janja da Silva, não cruzou a Sapucaí no espetáculo constrangedor promovido pela Acadêmicos de Niterói, última colocada na pontuação.
O impacto do desfile foi amplificado porque a Acadêmicos de Niterói não se limitou a fazer uma louvação à biografia do presidente, mas ridicularizou seu principal adversário, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está preso e inelegível, mas é o patrono da candidatura do filho. Com isso desencadeou o mecanismo da polarização. Quem não gostou do que viu foi lembrado da alternativa. A escola, contudo, foi além, e ironizou os eleitores do bolsonarismo, com a ala de figurantes vestidos como comida enlatada, em um possível trocadilho com a expressão “família conservadora”. Todos os gatilhos possíveis de mobilização foram acionados.
Uma ponderação deve ser feita à pesquisa Atlas Bloomberg, que de modo nenhum a invalida, mas complica a comparação com levantamentos feitos com metodologias diferentes. A Atlas faz seu levantamento pelo método de recrutamento digital randomizado. Em outras palavras, a Atlas trabalha com painéis de respondentes de pesquisas on-line, e aplica as ponderações de acordo com o perfil da população do Brasil.
Este tipo de pesquisa é bastante comum na Europa e nos Estados Unidos e tem índices de acerto bem altos em relação ao observado na urna, mas carrega um viés, que pesa mais quando a eleição ainda está distante: o eleitor indeciso ou desinteressado no momento do processo político tende a não responder.
Somente 0,5% dos respondentes se disseram indecisos. Também tendem a ficar de fora da pesquisa as faixas menos conectadas na internet. São residuais perante o eleitorado como um todo, mas concentradas em nichos, como o eleitor mais velho, menos instruído, com menor renda e morador de pequenas cidades.
O que é inegável é que a pesquisa aponta o tamanho do estrago da Sapucaí na campanha de Lula. Não é nada que seja definidor para a eleição, mas a derrota de um incumbente pode às vezes ser a resultante da soma de pequenos erros, e esta é uma tese muito aplicada para se explicar a derrota do então presidente Jair Bolsonaro em 2022: declarações infelizes, aliados jogando granadas em policiais ou correndo de revólver em punho atrás de transeuntes isoladamente não explicaram, mas juntos compuseram um mosaico entre um primeiro e um segundo turno em que faltou fôlego para Bolsonaro ultrapassar o atual presidente. (Com informações do portal Valor Econômico)