Quinta-feira, 24 de Setembro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 23 de setembro de 2026
A Polícia Federal (PF) encontrou menção a um contrato da lobista Roberta Luchsinger com a petroquímica Unigel, que, no atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, fechou acordo com a Petrobras para encerrar disputa bilionária e ainda fez R$ 176,8 milhões em negócios sem licitação com a estatal.
Mensagens extraídas do celular dela mostram o envio de dois documentos a Gustavo Gaspar, ex-assessor do senador Weverton Rocha (PDT-MA). Ela também cita uma procuração. O diálogo ocorreu no dia 3 de fevereiro de 2024. “Eu vou te mandar os contratos da unigel tb tá”, diz. E depois complementa: “e os de compra e venda tb”.
Roberta já acompanhou executivos da Unigel em visita ao BNDES, em setembro de 2023. Em julho do ano seguinte, pediu ajuda a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe de gabinete de Lula, para viabilizar uma reunião com a presidente da Petrobras, Magda Chambriard.
“Leo (tá desesperado pq a Magda não recebeu eles, nada ta acontecendo e a Petrobras parece que não quer ajudar… temos que ter algo pra falar senão vai acabar aquilo lá sabe)”, disse na ocasião.
O diretor de relações governamentais da Unigel é Leo Slezynger e tem relação de longa data com a lobista. Ela o acompanhou em reunião com o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante. Participaram do encontro outros executivos da empresa, como o presidente do Conselho de Administração, Henri Slezynger, pai de Leo.
De acordo com o banco, foi discutido, naquela oportunidade, o possível apoio financeiro à construção de uma fábrica de hidrogênio verde. O projeto, no entanto, não foi adiante.
Quando foi candidata a deputada estadual em São Paulo pelo PT, em 2018, Roberta recebeu doação de R$ 10 mil de Leo Slezynger, o equivalente a 16% do valor arrecadado pela campanha. Ela não foi eleita e ficou como suplente.
Na época em que a lobista enviou as minutas a Gaspar, a Unigel estava em tratativas para pôr fim a um arrendamento de plantas de fertilizantes da Petrobras situadas em Sergipe e na Bahia cujo encerramento estava previsto somente para 2030.
Em maio de 2025, o acordo saiu do papel. Segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), a própria estatal havia estimado um prejuízo potencial de R$ 1,23 bilhão com a devolução das fábricas.
De acordo com dados da estatal, a Proquigel Química, uma subsidiária da Unigel, firmou ainda 19 contratos no valor de R$ 176,8 milhões a partir de 2025 – todos efetuados mediante dispensa ou inexigibilidade de licitação.
A PF investiga suspeitas de tráfico de influência de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho mais velho do presidente e amigo de Roberta. Investigadores apontam indícios de que ela tinha autorização para fazer negócios em nome dele.
A lobista fez 42 visitas aos ministérios da Saúde e do Desenvolvimento Social, ao Palácio do Planalto e ao BNDES, onde foi acompanhada de executivos da Unigel. Em apenas uma delas, a presença de Roberta foi registrada na agenda oficial, como determina a lei.
Gaspar, para quem ela enviou as mensagens, é suspeito de receber dinheiro de Antônio Carlos Camilo, o Careca do INSS, e de participar de seus negócios.
Em 2019, a Unigel fez operação para explorar fábricas de fertilizantes da Petrobras que estavam paralisadas naquela época. Em meados de 2023, já com o presidente Lula no poder, a empresa passou a alegar que a atividade não era mais economicamente viável devido à mudança dos preços de insumos no mercado.
Paralelamente, iniciou negociações para mudar os termos da relação comercial e contornar a situação. No fim daquele ano, foi firmado um entendimento para implantar modelo conhecido como tolling, em que a estatal fornecia gás natural para a fabricação dos fertilizantes e, em contrapartida, a Unigel entregava o produto industrializado.
As pressões pela costura desse acordo foram um dos fatores que levaram à crise nas relações entre o Palácio do Planalto e Jean Paul Prates, que foi presidente da Petrobras no início do terceiro mandato de Lula.
A mudança dos termos do negócio, contudo, não chegou a entrar em vigor. O Tribunal de Contas da União (TCU) concluiu que o modelo adotado geraria prejuízo de R$ 487 milhões para a estatal em oito meses de vigência. No acórdão, o relator, ministro Benjamin Zymler, cita “existência de indícios robustos de irregularidades graves”.
“Pelo exposto, conclui-se que a contratação do Tolling, além de onerar indevidamente o orçamento da estatal, violou o princípio constitucional da eficiência e desrespeitou os princípios e fundamentos da própria política de governança da estatal, que estabelece a responsabilidade econômica e o compromisso com a geração de valor para os acionistas e partes interessadas de forma ética e sustentável” diz a decisão.
A empresa negou ter feito contrato com a lobista. Já a Petrobras afirmou que as tratativas para o encerramento de controvérsias contratuais referente ao arrendamento ocorreram de acordo com todas as normas de governança da companhia. (Com informações de O Estado de S. Paulo)