Terça-feira, 03 de Março de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 2 de março de 2026
O início de um ataque no último sábado (28) realizado pelos Estados Unidos, em conjunto com Israel, sobre alvos no Irã, marca o ápice das tensões de uma relação complicada entre americanos e iranianos por décadas. Sob o pretexto de um acordo nuclear não firmado, o conflito entre os dois países possui raízes mais profundas de disputas regionais e manutenção de poder.
Em fala ainda no sábado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que acabaria com uma ameaça à segurança dos EUA e ofereceria aos iranianos a chance de derrubar seus governantes. De forma semelhante, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou que o ataque contra o Irã “criará as condições para que o corajoso povo iraniano tome as rédeas do seu destino”.
Para além das palavras já ditas, os motivos do conflito entre EUA e Irã remontam à Revolução Islâmica em 1979, o ponto nevrálgico no estremecimento das relações entre os dois países. Na época, uma das primeiras bandeiras levantadas pelo movimento revolucionário iraniano era o anti-imperialismo americano, o que ficou ilustrado no caso de diplomatas e cidadãos que foram mantidos reféns por manifestantes iranianos em um cerco à Embaixada dos EUA em Teerã durante 444 dias.
Desde então, uma série de críticas públicas, sanções econômicas e eventuais ações militares foram realizadas por governos dos dois países. O professor da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, Daniel Rio Tinto, explica que o conflito permanece de forma ininterrupta há décadas, mas que a tensão retórica varia dependendo da situação.
“A administração do (ex-presidente dos EUA) Barak Obama conseguiu uma série de concessões do Irã adotando uma postura de maior parcimônia. Mas, para a administração do (atual presidente) Donald Trump, ações mais inflexíveis são interpretadas como demonstrações de força do governo”, diz.
Para ele, era possível observar um “declínio da qualidade das relações e da confiança (entre EUA e Irã), que avançou com o aumento da narrativa de que um confronto bélico resolveria o impasse entre os países”.
Motivos dos EUA
Uma vez que as relações instáveis entre os dois países se estendem por algumas décadas, Tinto explica que não é possível determinar uma única razão para desencadear um conflito bélico. O acordo nuclear entre Irã e EUA foi apontado nas últimas semanas como uma das principais razões para o conflito entre os países.
O objetivo era limitar o programa nuclear iraniano, para evitar o desenvolvimento de uma arma nuclear pelo país persa. Oficialmente, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o Irã não possui armas nucleares, apesar de não ser possível saber se há alguma atividade nuclear clandestina.
“Os EUA são contra a proliferação de armas nucleares e eles não gostariam que o Irã tivesse armas nucleares, mas isso seria diferente se eles estivessem uma relação mais amigável, como no caso dos EUA com a Arábia Saudita”, sugere Tinto.
Motivos do Irã
No caso do Irã, um dos motivos para que não haja um recuo diante da retórica americana está nos esforços para a manutenção da teocracia atual. “Regimes autoritários frequentemente usam a ameaça externa como uma justificativa para a manutenção do seu poder”, explica Tinto.
O professor explica que, na prática, o “inimigo externo” é usado como ferramenta para despertar um apelo nacionalista, o que reduziria as diferenças de grupos internos em prol de uma luta contra supostos interessados no controle ou recursos naturais do país.
“O inimigo externo justifica o autoritarismo, porque ele convence várias partes de que há um inimigo mais urgente (do que os conflitos internos)”, diz Tinto.
No início do ano, o Irã passou por uma série de protestos populares contra o regime dos aiatolás. O movimento foi violentamente reprimido pelo governo local, resultando na morte de mais de 7 mil pessoas, segundo a Human Rights Activists News Agency. (Com informações do Valor Econômico)