Domingo, 29 de Março de 2026

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Pressionado por nova alta das passagens aéreas e dos alimentos, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15) – a prévia da inflação oficial no País – subiu 0,44% em março, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado surpreendeu economistas, que esperavam maior desaceleração do indicador após alta de 0,84% em fevereiro.

Para alguns, o dado reforçou a perspectiva de menor espaço para cortes da taxa básica de juros pelo Banco Central. Outros notaram, porém, que a alta ficou concentrada em itens voláteis e que algumas métricas de núcleo não tiveram piora destacada.

A leitura do IPCA-15 de março ficou acima da mediana das 25 projeções colhidas pelo jornal “Valor Econômico”, que estimavam alta de 0,29% em março, e perto do teto do intervalo de estimativas, que ia de 0,22% a 0,48%.

No acumulado em 12 meses, o IPCA-15 acumula elevação de 3,90%, saindo de 4,10% em fevereiro. Assim, segue dentro da banda perseguida pelo Comitê de Política Monetária (Copom), cujo centro é 3% com tolerância de 1,5 ponto percentual (p.p.)

Cinco das nove classes de despesas registraram aceleração na virada do mês: alimentação e bebidas (de 0,20% para 0,88%); habitação (de 0,06% para 0,24%); artigos de residência (de 0,21% para 0,37%); vestuário (de -0,42% para 0,47%) e despesas pessoais (de 0,20% para 0,82%).

Na outra ponta, subiram menos os preços de transportes (de 1,72% para 0,21%); saúde e cuidados pessoais (de 0,67% para 0,36%); educação (de 5,20% para 0,05%); e comunicação (de 0,39% para 0,03%).

Os alimentos foram os maiores vilões nesta leitura, respondendo por 43,8% de toda a alta registrada. O grupo alimentação no domicílio acelerou de 0,09% em fevereiro para 1,10% em março, com destaque para a alta de 1,45% das carnes e 4,46% do leite longa vida. Estas foram as duas principais influências individuais dentro deste grupo, com impacto de 0,04 p.p. e 0,03 p.p., respectivamente.

Já a passagem aérea frustrou a expectativa de deflação e subiu 5,94% nesta divulgação, sendo o maior impacto individual do IPCA cheio, acrescentando 0,05 p.p.

Irã

O dado de março surpreende porque ainda não reflete os efeitos da guerra no Irã, diz a estrategista-chefe de inflação da Warren, Andréa Angelo. No avanço das passagens, por exemplo, não há relação com o conflito porque, por razões metodológicas, o IBGE coletou os preços em janeiro, explica.

Ao mesmo tempo, a queda da gasolina (-0,08%) reflete apenas o último reajuste da Petrobras, em janeiro. Desde então, o preço do litro de combustível aumentou R$ 0,40 nas bombas, algo que deve aparecer nas próximas divulgações do IPCA.

“Acredito que o que existia de otimismo de mercado com a inflação acabou com esse número. Os números têm vindo piores desde fevereiro, e ainda não refletem a alta do petróleo. Daqui para frente, a perspectiva é de pressão ainda maior”, diz Andréa.

Ela ressalta que os números contrastam, inclusive, com as projeções do próprio do Banco Central para o curto prazo, divulgados no Relatório de Política Monetária (RPM). A autoridade monetária espera alta de 0,33% para o IPCA em março, enquanto a Warren espera algo perto de 0,70% após a prévia do mês.

“O BC, que tem adotado premissas bem otimistas para o petróleo, vai ter surpresa em março e acredito que nos próximos meses também, que estão com projeções ainda baixas”, diz.

Para o economista da Genial Investimentos Gabriel Pestana, o dado de março reforça que a trajetória de desinflação observada até o início do ano terminou, o que reduz o espaço para cortes da Selic pelo Banco Central: “Estávamos com 12%, mas agora esperamos que a Selic termine o ano em 12,5%”.

Ele acrescenta: “O maior desvio em relação à expectativa veio de passagem aérea. É um item muito volátil e, se fosse o conflito no Irã, as pessoas talvez teriam minimizado sua contribuição. Só que, neste caso, a alta tem conexão clara. Se os preços já sobem em um momento em que os custos ainda não são impactados pela guerra, é um sinal ruim”.

Pestana pondera que não são apenas os itens diretamente afetados pelo petróleo que mostravam trajetória pior antes da guerra. Alimentos, bens industriais e serviços também vinham se comportando pior na comparação com o mês anterior. Até o início do conflito, apenas este último era foco de preocupação. Ele finaliza:

“No caso de alimentação, o fato de que a pressão vem de carnes, um item bastante correlacionado com o ciclo do boi e fortemente inercial, corrobora essa visão de que o cenário é de preços para cima. Isso sem contabilizar pressões que ainda não chegaram, como os custos de um diesel mais alto e dos preços de fertilizantes, que sobem lá fora.” (com informações do portal Valor Econômico)

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