Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 29 de janeiro de 2026
Estar em um velório nunca é uma experiência neutra. Mesmo quando se tenta manter uma conversa banal, algo ali desloca o cotidiano. O tom de voz muda, os gestos se tornam contidos, e quase todos acabam dizendo, de um jeito ou de outro, alguma coisa sobre a brevidade da vida.
A morte, que normalmente mantemos fora do campo de visão, reaparece sem pedir licença. Não como ideia, mas como presença. Foi com essa sensação ainda muito viva que, ao chegar em casa, voltei a um livro antigo da estante: Apresentação da Filosofia, de André Comte-Sponville. Em especial, ao capítulo em que ele fala da morte.
Há algo de desarmante na maneira como Comte-Sponville aborda esse tema. Ele não escreve para impressionar nem para consolar. Escreve para esclarecer, e isso, quando se fala de morte, já é muito. Não há promessa de salvação filosófica nem dramatização existencial. A morte aparece ali como aquilo que é: um dado inevitável da condição humana. Não um enigma a ser resolvido, mas um limite a ser reconhecido.
Talvez por isso Montaigne esteja tão presente nesse capítulo. Não como citação ornamental, mas como companhia intelectual. Quando Montaigne afirma que “filosofar é aprender a morrer”, ele não está defendendo uma vida voltada para o fim, mas o contrário: uma vida menos dominada pelo medo. Comte-Sponville parece retomar exatamente esse ponto. Pensar a morte não é tornar-se mórbido, é tornar-se livre.
Quem não foge da ideia do fim deixa de viver sob sua sombra. Uma das passagens mais lúcidas do capítulo é a distinção entre o medo de morrer e o medo de estar morto. À primeira vista, parecem a mesma coisa. Mas não são. Não temos experiência possível da morte, porque, quando ela chega, já não estamos mais ali e quando estamos a morte não está. O que tememos é o processo, a dor, a separação, o abandono dos que amamos. Epicuro já dizia isso, e Montaigne concordava. Comte-Sponville apenas retira o excesso de solenidade e nos devolve a ideia em linguagem direta, quase cotidiana.
Essa lucidez não torna o tema mais frio. Ao contrário. Ela o torna suportável. A morte deixa de ser castigo, mistério ou escândalo metafísico. Passa a ser o término da vida, nada mais, nada menos. O problema, como sugerem Montaigne e Comte-Sponville, não está na morte em si, mas na forma como projetamos nela nossos medos, nossas frustrações e nosso desejo de eternidade.
Sem negar a legitimidade da fé, Comte-Sponville insiste em algo essencial à filosofia: é preciso partir do que sabemos, não do que gostaríamos que fosse verdade. E o que sabemos é simples e duro: somos finitos. Montaigne já havia percebido que aceitar isso não empobrece a vida. Pelo contrário, a torna mais leve. Quando o tempo é infinito, tudo pode ser adiado. Quando não é, cada escolha pesa.
É aí que o capítulo deixa de ser apenas reflexivo e se torna ético. Pensar a morte não serve para morrer melhor, mas para viver melhor. A consciência do fim relativiza vaidades, enfraquece ressentimentos e recoloca o essencial no centro. No fim, não são os títulos nem as honrarias que permanecem, mas os vínculos, os afetos, a forma como atravessamos o tempo que nos foi dado.
Comte-Sponville não fecha o texto com consolo. Fecha com honestidade. A morte não dá sentido à vida. Mas nos lembra, de modo silencioso e implacável, que o sentido não pode ser sempre adiado. Ele precisa ser construído agora, enquanto ainda estamos aqui.
Talvez seja por isso que reler esse capítulo depois de um velório cause tanto impacto. A filosofia, quando é verdadeira, não nos afasta da experiência concreta. Ela a ilumina. Pensar a morte, como queriam Montaigne e Comte-Sponville, não é ensaiar o fim, é aprender, com mais lucidez e menos medo, a viver.
*Amilcar Fagundes Freitas Macedo.
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