Sábado, 28 de Fevereiro de 2026

Home Amilcar Macedo Quando a sirene anuncia esperança

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Outro dia alguém comentou comigo que existe um som capaz de mudar o humor de uma cidade inteira: o de uma sirene de bombeiros atravessando o trânsito. Não é exagero. Quem já passou por uma situação de risco sabe que, antes mesmo de enxergar o caminhão, surge uma sensação difícil de explicar. É como se, por alguns instantes, o medo perdesse espaço para a certeza de que alguém veio ajudar.

Talvez seja por isso que o Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul ocupe um lugar tão particular no imaginário gaúcho. Não se trata apenas de uma instituição pública. Tratase de uma presença. De algo que aparece justamente quando tudo parece sair do controle.

A história começa em 1º de março de 1895. Porto Alegre ainda era uma cidade em formação, com construções vulneráveis e incêndios capazes de destruir quarteirões inteiros. Dezessete homens aceitaram a tarefa de enfrentar esse risco permanente. Tinham poucos recursos, equipamentos simples e muita improvisação. O que havia em abundância era disposição. Alguém precisava agir, e eles decidiram ser esses alguém.

Com o tempo, aquela pequena companhia cresceu junto com o Estado. Durante décadas, os bombeiros estiveram integrados à Brigada Militar, compartilhando rotinas, treinamento e uma cultura marcada pela disciplina e pela prontidão. A autonomia administrativa conquistada em 2014 apenas formalizou algo que a sociedade já percebia havia muito tempo: os bombeiros tinham identidade própria, construída na confiança cotidiana da população.

Hoje, quando se fala em Corpo de Bombeiros, muita gente pensa apenas no combate a incêndios. Mas a realidade é bem mais ampla. Há resgates em rodovias, buscas em áreas rurais, salvamentos aquáticos, atendimento a vítimas de acidentes e, sobretudo, um trabalho silencioso que raramente vira notícia: a prevenção. Cada vistoria realizada, cada orientação técnica, cada exigência de segurança cumprida representa um problema que deixou de acontecer.

Os momentos de grande tragédia, contudo, revelam com mais clareza o tamanho dessa missão. As enchentes de 2024 ficaram gravadas na memória coletiva do Rio Grande do Sul. Em várias cidades, o cenário era de perda absoluta. Casas submersas, famílias separadas, incerteza por todos os lados. Foi então que imagens passaram a se repetir: bombeiros avançando pela água, ajudando idosos a sair de casa, carregando crianças, retornando inúmeras vezes ao mesmo local. Não havia discursos ali, apenas trabalho.

Talvez resida aí a razão do respeito quase imediato que a figura do bombeiro desperta. Em tempos nos quais tantas instituições são questionadas, a presença deles continua associada a algo simples e direto: ajuda concreta. Não há distância, não há formalidade excessiva. Há alguém chegando porque alguém precisa.

Celebrar o aniversário do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul é, no fundo, reconhecer essa história construída longe dos holofotes. A maior parte das ocorrências jamais será lembrada publicamente. Permanecem apenas nas conversas de família, nos agradecimentos silenciosos e na memória de quem voltou para casa depois de um dia que poderia ter terminado diferente.

No fim das contas, a confiança social nasce dessas experiências discretas. Não de grandes discursos, mas de gestos repetidos ao longo do tempo.
E há uma certeza que atravessa gerações em cada cidade gaúcha: quando a sirene ecoa, não chega apenas um veículo de emergência.
Chega o socorro.
Chega alguém disposto a servir.
E, quase sempre, chega também a esperança.

*Amílcar Fagundes Freitas Macedo

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