Domingo, 15 de Fevereiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 15 de fevereiro de 2026
Quando nascemos, quase ninguém começa a vida no fundo do poço. Pode parecer uma afirmação dura, mas é verdadeira.
A pobreza de hoje não é a mesma da pobreza de décadas atrás. A tecnologia encurtou distâncias, democratizou acesso, colocou no bolso de muita gente aquilo que antes era privilégio de poucos.
O pobre de hoje tem acesso a coisas que o rico não tinha há quarenta anos. Mudaram os tamanhos, as marcas, as versões… mas o acesso existe praticamente para todos.
E, mesmo assim, caminhamos pelas ruas e vemos pessoas completamente destruídas, jogadas como se fossem restos de uma história que ninguém mais quer ouvir.
E aí vem a pergunta inevitável, silenciosa e incômoda: O que aconteceu com essas pessoas?
A resposta quase nunca é simples… mas ela costuma ser parecida. A maioria não nasceu na miséria. A maioria teve pai, mãe, casa, infância e até mesmo acesso a estudos.
Teve aniversários, risadas, sonhos. Teve um começo comum, como o de quase todos nós.
Em algum momento, porém, a estrada mudou de direção… E é aqui que entra a parte da história que ninguém gosta de encarar: as escolhas que moldam nosso destino.
Não são as grandes decisões dramáticas. São as pequenas. As primeiras. As aparentemente inofensivas.
A primeira bebida aceita só para não parecer careta. O primeiro cigarro. A primeira droga experimentada por curiosidade. O primeiro convite perigoso que parecia apenas diversão. A primeira dívida feita achando que depois se resolve.
A primeira vez que a consciência sussurrou “isso é errado”… e mesmo assim a escolha foi seguir adiante. Talvez tenha sido a oportunidade de pegar algo que não era seu. Talvez tenha sido a vontade de agradar amigos. Talvez tenha sido a necessidade de pertencer.
As grandes quedas raramente começam grandes. Elas começam pequenas, silenciosas e justificadas.
E, então, sem que a gente perceba, chega o dia em que acordar vira um verdadeiro pesadelo. Dormir passa a ser o único momento de silêncio e paz. O único instante em que os ruídos da vida ficam do lado de fora.
O único lugar onde ainda é possível sonhar. Mas o amanhecer chega. E, com ele, a realidade.
Às vezes, o pesadelo é leve: contas atrasadas, multas, dívidas, o emprego por um fio, o relacionamento desgastado, a sensação constante de estar apagando incêndios o tempo todo, tirando nossa percepção de como a vida pode ser bela.
Outras vezes, o pesadelo é absoluto: a vida inteira desmoronada. Para quem olha de fora, pode parecer exagero. Para quem vive, é apenas a realidade batendo à porta todos os dias.
E, curiosamente, escrevo no período de Carnaval, a época do ano em que milhões de pessoas escolhem, conscientemente, comprar ruído para o futuro.
Gasta-se o que não se tem. Financia-se o prazer imediato. Empurra-se o problema para depois. Arrisca-se a saúde, a segurança, o equilíbrio… tudo em nome de alguns dias de euforia e prazeres efêmeros.
Nada contra a alegria. Nada contra a festa. Mas, cedo ou tarde, toda escolha cobra a sua conta. O problema nunca foi a festa. Sempre foi a fatura que vem depois, geralmente com juros e correção monetária.
A maturidade chega quando percebemos algo simples e poderoso: no fundo, todos sabemos o que é certo.
O coração avisa. A intuição da alma sinaliza. A vida dá pequenos alertas antes de emitir grandes boletos. Amadurecer é aprender a ouvir essa voz… É trocar o prazer que dura horas pela paz que dura anos.
É escolher silêncio em vez de ruído. É entender que felicidade não é ausência de problemas, mas ausência de caos.
Porque, no fim das contas, a maior vitória da vida é simples: chegar ao ponto em que acordar deixa de ser um pesadelo… e volta a ser apenas um novo dia, onde você se sente grato por estar longe das maldades do mundo e dos ruídos que assolam nossas vidas.
* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho