Terça-feira, 27 de Janeiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 26 de janeiro de 2026
Com a aprovação do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), o País entrou numa contagem regressiva. As plataformas terão até março deste ano para se adaptar a novas regras de verificação etária, supervisão parental e proteção de crianças e adolescentes.
As redes sociais fazem parte da vida de crianças e adolescentes muito antes deles estarem preparados para lidar com seus efeitos – e apesar das proibições legais. Entre especialistas que alertam para os riscos e famílias que tentam estabelecer limites, a pergunta central é: afinal, qual é a hora certa de liberar o primeiro perfil e o que fazer quando esse momento chega?
“Meu filho quer ter rede social, mas acho cedo”; “brigamos todos os dias por causa do uso excessivo de celular”; “ele criou um perfil no Instagram às escondidas”. Depoimentos ouvidos por Lunetas revelam um impasse coletivo, que demanda novas perguntas sobre educação, tecnologia e cuidado.
“Crianças não podem virar cobaias da indústria digital”, alerta Rodrigo Nejm, doutor em psicologia social e especialista em educação digital no Instituto Alana. “As plataformas disputam atenção a qualquer custo, inclusive à custa da saúde mental e da autoestima.”
Para a psicopedagoga e educadora parental Claudia Alaminos, a questão não está apenas em definir idades ou regras rígidas, mas em transformar a decisão em um gesto de proteção e amor. “Quando as decisões são compartilhadas, em vez de impostas, a regra deixa de ter o tom de controle e passa a ser entendida como cuidado.”
Não existe um botão de “liberar redes sociais”. Para Rodrigo Nejm, o caminho seguro é fazer isso de “forma gradual, acompanhando o desenvolvimento da criança e do adolescente”. Portanto, em vez do modelo “tudo ou nada” (proibir totalmente e depois liberar acesso irrestrito), a recomendação é construir uma espécie de escada de autonomia: primeiro o celular, depois alguns aplicativos, mais tarde determinadas redes, sempre com acordos claros, supervisão combinada e espaço para diálogo.
Para Claudia Alaminos, “é papel dos adultos responsáveis ensinar a construir uma relação saudável com a tecnologia”. E isso precisa acontecer de acordo com a idade indicada para cada plataforma. Mas, quando o acesso já foi dado, ela reforça ser “essencial garantir que o mundo digital não ocupe o lugar da vida real”. Afinal, nada substitui o convívio presencial e as experiências concretas.
A Classificação Indicativa, regulada pelo Ministério da Justiça, informa quais conteúdos não são adequados em diferentes faixas etárias. Ela se aplica a redes sociais, programas, filmes e jogos, orientando escolhas mais seguras. As faixas etárias são “Livre”, 10, 12, 14, 16 e 18 anos, definidas a partir da análise de três eixos: violência, drogas e sexo. Confira as classificações das principais redes sociais:
• Instagram: não recomendada para menores de 16 anos;
• TikTok: não recomendado para menores de 14 anos;
• X (antigo Twitter): não recomendado para menores de 18 anos.
• WhatsApp: 12 anos
• YouTube: 14 anos
• Kwai: 14 anos
• Facebook: 16 anos
• Discord: 18 anos
Apesar disso, dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025 mostram que o acesso de crianças e adolescentes acontece mais cedo: 33% entre 9 e 10 anos estão presentes nessas plataformas, 63% entre 11 a 12 anos e 89% entre 13 e 14 anos.
Mais maturidade
Na adolescência, pertencimento e aprovação viram quase “oxigênio”, diz Claudia. O cérebro ainda está em desenvolvimento, principalmente nas áreas ligadas a impulso e regulação emocional, enquanto o sistema de recompensa busca prazer imediato e novidade constante, exatamente o que as redes sociais oferecem em forma de curtidas, comentários e seguidores.
A mesma sensibilidade às recompensas amplia a vulnerabilidade à rejeição, e pequenas críticas ganham proporções emocionais. “Não é coincidência que os índices de depressão, ansiedade e autolesão entre jovens tenham aumentado”, aponta a especialista. Por isso, ela defende: quanto mais tempo de uma infância livre de redes sociais, maior a chance de um futuro digital mais equilibrado e saudável.
No Brasil, os registros de ansiedade entre crianças e jovens superam os de adultos, segundo dados da RAPS (Rede de Atenção Psicossocial). Entre 2013 e 2023, os atendimentos envolvendo transtornos de ansiedade no SUS (Sistema Único de Saúde) aumentaram 1.575% entre crianças de 10 a 14 anos. Já entre 15 e 19 anos o aumento foi de 4.423%.
“É só por volta dos 16 anos que o adolescente começa a desenvolver habilidades para lidar com comparações, reconhecer seus próprios valores e sustentar sua autoestima sem depender tanto do olhar externo”, explica Claudia. Antes disso, “as redes sociais funcionam como um espelho distorcido, onde todo mundo é mais bonito, mais rico, mais magro, viaja mais, come nos melhores restaurantes.” (As informações são do jornal O Globo e Nexo Jornalismo)