Segunda-feira, 02 de Março de 2026

Home em foco Quebra de sigilo de Lulinha no tapetão cria fato político sem qualquer serventia para elucidar o escândalo

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Os leitores mais jovens talvez não tenham conhecido o Telecatch, uma espécie de luta livre coreografada muito popular entre as décadas de 1960 e 1980. Nela, ninguém efetivamente se machucava, pois o objetivo dos participantes era divertir o público. Se alguém sentir saudade ou curiosidade sobre os combates, basta conferir a sessão mais recente da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre o esquema de fraudes no INSS.

A exemplo da modalidade, a reunião terminou com uma encenação de troca de sopapos, com a diferença de que o espetáculo protagonizado por deputados e senadores não fez ninguém rir. Foi só mais um capítulo de uma comissão que prometia muito, não entregou nada e que felizmente se encerra no fim de março – a não ser que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (UniãoAP), perca o juízo e aceite prorrogar seus trabalhos.

Não há razão para ter boa vontade com essa comissão. Instalada em agosto, a CPMI prometia investigar a fundo o esquema de descontos ilegais em benefícios do INSS que abastecia os cofres de sindicatos e associações sem autorização dos aposentados e pensionistas.

Meses depois, deputados e senadores da base aliada, da oposição e do Centrão pisam em ovos para poupar aliados e a si mesmos. A longevidade de um esquema que atravessou governos desde 2016 indica, no mínimo, uma conivência suprapartidária do Congresso que permitiu que os débitos irregulares atingissem milhões de pessoas.

Não chegar a lugar algum já seria ruim para uma CPMI, mas transformar o plenário em um ringue e aprovar no tapetão um pedido de quebra de sigilo bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Lula, é um epílogo verdadeiramente indigno para qualquer comissão.

Goste-se ou não, a base aliada estava presente em peso, o suficiente para impedir a aprovação do requerimento do relator, Alfredo Gaspar (União-AL). Diante da confusão, era obrigação do presidente da CPMI, Carlos Viana (Podemos-MG), fazer a recontagem dos votos. Se o Regimento Interno do Congresso ainda tem algum valor, anular a votação é um dever de Alcolumbre.

Tudo isso só serviu para colocar os holofotes sobre uma CPMI que anda de lado desde sua criação e conferir alguma notoriedade para o presidente e o relator, que disputarão, respectivamente, o Senado por Minas Gerais e o governo de Alagoas em oposição a candidatos apoiados pelo governo Lula.

Não por acaso, Viana e Gaspar foram mencionados no documento fotografado por toda a imprensa no qual o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) registrou sua estratégia para formar palanques nos Estados para sua candidatura à Presidência.

A questão é que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), já havia autorizado a quebra do sigilo de Lulinha a pedido da Polícia Federal (PF) em janeiro, por suspeita de que ele seja sócio oculto de Antônio Camilo Antunes, o “Careca do INSS”.

Se Lulinha vai se dar mal, não será pelas mãos de uma CPMI natimorta, que apela a manobras para chamar a atenção e que nunca esteve disposta a colocar o dedo na ferida para esclarecer as fraudes que deveria investigar. (Opinião/O Estado de S. Paulo)

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