Sexta-feira, 02 de Janeiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 2 de janeiro de 2026
O filme “Amistad”, de Steven Spielberg, conta a história sobre o julgamento de africanos escravizados. A história se passa em 1839, quando um grupo de africanos prisioneiros se insurgiram em um navio negreiro na costa americana. No conflito, morreram alguns de seus algozes.
E neste filme tem uma cena muito emblemática.
No dia anterior ao julgamento por uma corte norte-americana, o advogado de defesa dos africanos, sem saber exatamente qual argumento utilizar em suas defesas, pergunta ao líder dos acusados através do tradutor:
Afinal, o que posso dizer em suas defesas?
A resposta veio rápida e firme:
Quando não sabemos o que fazer em algumas situações evocamos os nossos antepassados!
Disse o líder convicto!
O advogado balançou a cabeça desanimado com a resposta do líder.
No dia seguinte, durante o julgamento, o advogado percebeu que nas paredes da sala do júri estavam os retratos de Thomas Jefferson, George Washington, Abraham Lincoln, os pais da pátria dos Estados Unidos da América
O advogado então pergunta aos jurados:
Senhores, em síntese me digam, apontando para os quadros na parede. O que estes homens tinham em comum?
A resposta não veio. Só silêncio. Então ele mesmo respondeu:
Eles lutaram pela liberdade! Por nossa liberdade!
E foi exatamente isso que estes pobres homens estavam lutando!
Justamente o princípio mais valioso da América, a liberdade!
Uma aula de pragmatismo absolutamente objetivo.
Na corte todos se olharam perplexos, os “founding fathers”, ou os pais da pátria dos EUA, foram os líderes que estabeleceram as bases da nação americana.
George Washington, Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, John Adams, James Madison Alexander Hamilton e John Jay.
E nós aqui?
Quem são os pais da pátria brasileira? Simplesmente não temos, ou melhor, nós mesmos, não deixamos que ninguém seja?
Do século XIX, O imperador Dom Pedro I, José Bonifácio, Dom Pedro II, Duque de Caxias, Gen. Osório e a Princesa Isabel são personagens da nossa história e deram suas vidas pelo Brasil.
Mas não! Foram rotulados como da elite imperialista e a República Velha morria de medo da popularidade da família real. Os heróis Duque de Caxias e o valente, bravo, o gaúcho Gen. Manuel Luís Osório, foram apagados da memória afetiva do povo brasileiro.
No início do século XX, já na República, teríamos Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Quintino Bocaiúva e Ruy Barbosa? Quem sabe?
Não deu também. Os dois militares, primeiro deu um golpe, outro era malvado demais e os outros não eram populares.
Alguém mais? Alguém diria… Getúlio Vargas que era chamado de “pai dos pobres”, mas Getúlio, em 1950 o Brasil já tinha mais de 100 anos, para “pai da pátria” já era tarde.
Somos órfãos de pais da pátria e de heróis nacionais para que tenhamos um “Norte” em momentos difíceis nos rumos da nação. Uma referência moral de valores permanentes e de amor à pátria.
Voltando ao filme “Amistad”.
Ao final do julgamento com a absolvição dos africanos e autorização para voltarem ao seu continente. No meio da euforia de todos, o líder negro, curioso, pergunta ao advogado:
Afinal, o que você disse para nos deixarem livres?
Ao que o advogado respondeu:
Segui seu conselho e evoquei os nossos antepassados!
(Rogério Pons da Silva – jornalista e empresário – rponsdasilva@gmail.com)