Segunda-feira, 09 de Março de 2026

Home Política Revelações estarrecedoras sobre promiscuidade em altos escalões reforçam urgência do combate à corrupção no Brasil

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A revelação da mecânica mafiosa envolvendo um banqueiro corruptor e seus comparsas, as engrenagens de uma rede perniciosa que atravessa lideranças do Congresso, partidos, governo, Banco Central e Supremo Tribunal Federal, as zonas de sombra expostas no escândalo do INSS – tudo isso vem produzindo, nos últimos tempos, uma sensação inquietante na opinião pública: a de que o coração da República estaria tomado por redes de influência, intermediários e negócios pouco transparentes.

A consequência praticamente inevitável, e também o maior perigo, de é que esses episódios aprofundem a desconfiança do brasileiro em relação ao sistema político e democrático. Se a perplexidade diante da promiscuidade entre interesses privados e representantes dos Três Poderes se converter em descrença generalizada nas instituições e na democracia, estará aberto o terreno em que prosperam oportunistas, aventureiros e populistas – quase sempre amparados na ideia de que é preciso não apenas mudar a política, mas negá-la por completo.

A reação é compreensível, mas danosa. Este é o momento, portanto, de cidadãos e autoridades manterem a serenidade. É perfeitamente possível conciliar a necessária depuração dos trambiques revelados com a preservação das instituições. O Brasil já atravessou sucessivas ondas de escândalos que consolidaram a percepção de que a corrupção é um problema estrutural da vida pública. O mensalão revelou um sistema de compra de apoio parlamentar; o petrolão expôs esquemas bilionários; a Operação Lava Jato abriu uma janela inédita para práticas que haviam se naturalizado – e seu próprio ocaso mostrou os riscos do messianismo anticorrupção. Cada uma dessas crises produziu, a seu tempo, a mesma sensação de colapso moral. E, no entanto, a República seguiu de pé.

Não é a primeira vez que o Brasil se submete a provas severas. Os brasileiros enfrentaram o impeachment de Fernando Collor, assistiram ao mensalão durante o primeiro governo do PT e ao petrolão, talvez o maior escândalo de corrupção da história nacional, que expôs o saque sistemático da Petrobras e de outras estatais, sobreviveram ao impeachment de Dilma Rousseff, processo traumático que dividiu o País, e resistiram ainda à investida liberticida dos golpistas reunidos em torno de Jair Bolsonaro. Em todos esses momentos, a impressão dominante foi a de que o sistema chegara ao limite. Ainda assim, a ordem constitucional resistiu.

Isso não significa que o problema seja menor do que parece. Ao contrário. A corrupção permanece profundamente presente na consciência do eleitor porque ela é real. Pesquisas recentes mostram que o tema figura entre as principais preocupações nacionais, ao lado da segurança pública e da situação econômica.

É inevitável que as revelações recentes tenham impacto no ambiente político e eleitoral. A proximidade das eleições tende a amplificar o peso do tema. Casos que atingem atores situados em diferentes campos políticos – da esquerda à direita, passando pelo onipresente Centrão – reforçam a percepção de que a corrupção não é monopólio ideológico de ninguém. Essa constatação pode aumentar a exigência do eleitor por integridade, mas também alimentar a perigosa ideia de que “todos são iguais”.

É precisamente aí que reside o grande risco. A indignação é legítima, mas o desalento absoluto, não. Entre reconhecer a gravidade dos fatos e concluir que a República está dominada por malandros há um salto que interessa apenas aos demagogos. Descrença generalizada costuma abrir espaço para aqueles que prometem varrer o sistema em nome de uma suposta regeneração moral – promessas que raramente fortalecem instituições.

A resposta correta aos escândalos não é o cinismo nem o colapso da confiança institucional, mas a responsabilização. Cada suspeita precisa ser investigada com rigor. Se empresários tentaram comprar influência, devem responder por isso. Se autoridades abusaram de suas posições, devem ser punidas. Portanto, devagar com o andor da República. A água do banho pode estar turva e precisa ser limpa. Mas o bebê continua ali – e é dele que depende o futuro do País. A democracia brasileira não está condenada. Como tantas vezes, ela dependerá da vigilância da sociedade, da responsabilidade das lideranças políticas e do rigor do eleitor ao julgar, nas urnas, aqueles que traem a confiança pública. (Opinião/jornal O Estado de S. Paulo)

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