Terça-feira, 27 de Janeiro de 2026

Home em foco Ruim com a ONU, pior sem ela

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O Fórum Econômico Mundial de Davos sempre foi terreno fértil para anúncios tão grandiloquentes quanto impotentes. Donald Trump levou o contraste a um novo patamar. Foi ali que inaugurou um nebuloso “Conselho da Paz”, apresentado como instrumento para destravar o pós-guerra em Gaza – e, segundo o próprio presidente, potencialmente apto a lidar com outros conflitos e até a substituir a Organização das Nações Unidas (ONU). A ambição é grande. O contexto, menos edificante.

Enquanto perorava sobre novas arquiteturas para a paz mundial, Washington oficializava sua retirada da Organização Mundial da Saúde. Pouco antes, anunciou o abandono de mais de 60 organismos internacionais. Não se trata de um gesto isolado, nem de um espasmo de irritação com a burocracia multilateral, mas de uma ofensiva sistemática contra o sistema de cooperação internacional que os próprios Estados Unidos ajudaram a construir e liderar ao longo de oito décadas.

Há quem interprete essa estratégia como pragmatismo agressivo: substituir fóruns lentos e disfuncionais por arranjos mais “eficientes”. Mas o padrão revela algo diferente. O Conselho da Paz não surge para corrigir falhas específicas da ONU, nem para torná-la mais funcional, mas como parte de uma estratégia institucional, na qual trocam-se compromissos universais por clubes seletivos, regras compartilhadas por decisões discricionárias e processos previsíveis por encenação política.

Nada ilustra melhor esse descompasso do que o próprio caso de Gaza. Em vez de simplificar a governança do território no pós-guerra, o arranjo patrocinado pelos EUA multiplica conselhos, camadas de autoridade e instâncias paralelas, sem produzir controle efetivo do terreno nem alívio concreto para a população civil. A paz, nesse modelo, aparece menos como resultado de instituições funcionais e mais como performance diplomática.

O contraste torna-se ainda mais desconfortável ante o tratamento dispensado por Trump às instituições que, de fato, sustentaram a estabilidade internacional no pós-guerra. Enquanto proclama iniciativas improvisadas e personalistas em nome da paz global, o presidente mina alianças reais, relativiza compromissos históricos e trata a Otan como fardo ou moeda de barganha. O que funciona é desprezado; o que é incerto é celebrado.

Com todos os seus defeitos, a Otan foi o mais eficaz mecanismo de dissuasão interestatal da história moderna. Não por carisma nem por improviso, mas por regras claras, previsibilidade e compromissos verificáveis. Enfraquecê-la enquanto se ensaia uma cruzada retórica pela paz mundial não é só incoerente, é contraproducente para os próprios Estados Unidos.

Não se trata de idealizar a ONU. Seu Conselho de Segurança é paralisado por vetos, a burocracia é pesada e a frustração é recorrente. Ainda assim, ela continua sendo o único fórum verdadeiramente universal onde potências rivais, aliados relutantes e Estados frágeis compartilham ao menos uma gramática comum. Abandoná-la não elimina seus defeitos, só o espaço onde eles podem ser sanados.

A Liga das Nações não fracassou por excesso de multilateralismo, e sim porque foi sistematicamente esvaziada, contornada e ignorada pelas próprias potências que deveriam sustentá-la. Não é preciso forçar paralelos com os anos 1930 para reconhecer ecos tenebrosos: quando o foro comum perde legitimidade, o vazio raramente é preenchido por algo melhor.

Reformar instituições multilaterais é lento, trabalhoso e politicamente ingrato. Contorná-las é tentador, rápido e teatral. Mas os custos vêm depois – em alianças corroídas, conflitos prolongados e ordens paralelas sem legitimidade. A paz não é um produto que se lança em Davos. É um processo que exige instituições capazes de sobreviver a governos, humores e vaidades.

A ONU é imperfeita, frustrante e frequentemente insuficiente. Ainda assim, num mundo fragmentado, ela permanece o fórum mais plausível para negociações multilaterais minimamente estáveis. Ruim com a ONU, sem dúvida. Mas a experiência histórica e o presente já indicam: sem ela, o mundo tende a ficar não mais eficiente, apenas mais perigoso. (Opinião/O Estado de S. Paulo)

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